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Talvez não seja a melhor forma de iniciar, mas não importa, vou fazer assim mesmo.

Domingo de manhã, depois de uma ressaca de lágrimas, um remédio para aliviar a cólica e algumas horas de sono mal recuperadas de dias insones, enfim o dia chegou novamente.

Mais uma passagem, outro aniversário e nada da minha mãe bater na porta do quarto às 10 e 45 como quase sempre faz em cada primeiro de março. E ela não vinha…

Distante das dores que antecederam minha chegada, numa segunda-feira de sol, nascimento sem choro, o que me valeu as primeiras palmadas.

As lágrimas  vêm mais fáceis agora, sem contato físico direto, mas causadas às vezes por sentimentos obscuros e por pequenas magoas e alegrias que o tempo vai tratando de administrar.

E das dores, as alegrias passageiras, as comemorações com direto a quase todos os anos com bolos, balões e todos os adornos de comemoração. Minha mãe sempre foi meio exagerada quando se trata de comida, e nessas ocasiões a casa sempre foi cheia. Até mesmo sete anos depois, quando nasceu a minha irmã, as festas continuaram na mesma proporção. A última “grande” festa foi aos 15 anos.

Depois, a passagem passou a ser celebrada um pouco mais intimista, mas sempre com bolos e pessoas queridas.

Voltando, para o mundo hoje. E minha mãe não vinha para dar o abraço, e voltei ao sono quando Com o elemento surpresa, de amigos, da família, o presente surpresa, 11 da manhã, o sono desperto pelo carinho, ela finalmente veio.

Carinho e afeto que foram se complementado ao longo do dia com o acréscimo de mais pessoas doces. Ficou a falta sentida de algumas pessoas, mas nada pode ser totalmente candidamente perfeito.

E foram as “águas fechando o verão” que vieram saudar meus 27 anos, cercada de risos e doces-amores. Um dia cinza mais colorido, as lágrimas ficaram dentro, dando espaço para o brilho e para a festa interior.

Com direto a bolo com claves de sol. A música que tocava e lavava a melancolia que dias comemorativos sempre me causam.

PS.: Este post vem no lugar do discurso que não consegui proferir, vem agradecer ao carinho e amor das pessoas mais importantes da minha vida.

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Sem confetes nem serpentinas

Não gosto muito de carnaval de avenida, e isso vem desde criança, raramente assisto  pela TV. Gosto sim das máscaras, das fantasias, estilo Veneza.  Ou dos carnavais de salão, de ruas e alamedas com seus bonecos gigantes, das sobrinhas coloridas, dos maracatus.

Nada contra quem goste, participe enalteça do samba promovido pela Sapucaí e outras que seguem esse modelo.  Suas cores, seu brilho, sua fantasia, sua vida efêmera.

Entendo a paixão, o amor que levam as pessoas a defenderem suas escolas com tanto fervor.

Confesso que durante algum tempo meus personagens preferidos foram o mestre- sala e a porta-bandeira.

Ontem, dei folga ao meu prazer /vício da leitura e me rendi à corte do rei momo televisiva, mas não agüentei muito tempo; apesar das cores, dos enredos até interessantes, da explosão da alegria, em mim veio o fastio.

Todo aquele espetáculo multicolorido, muito bonito admito, mas depois quando raia o ultimo dia, para onde tudo irá depois da quarta-feira de cinzas; todos aqueles adornos, quantos serão reciclados?

E todo o dinheiro “investido”, gasto onde vai parar?
Sim, são instantes de beleza, emoção, alegria, mas são instantes, que apesar de ficarem gravados, os seus mimos são “queimados”.

Por outro lado, é bonito ver a emoção das pessoas que compõem  a comunidade que labuta pela escola, muitas das quais pagam por suas fantasias, que naqueles 80 e tantos minutos vem explodir o universo paralelo que ajudaram a criar. E que continuaram a gerar.

Eu continuo preferindo a dança ao redor da fogueira; dos véus soltos, dos pés descalços. Das cores, do brilho, da alegria barata e continua.

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Sob o céu de Havana

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A lua prateada entra pela fresta de um teatro e ilumina os sonhos que nele foram depositados. Vem e faz companhia a uma guitarra solitária, em todas partes para onde quer que se vá, ela varre o pó da solidão.

Uma outra “face” de Cuba que a grande mídia não mostra é retratada em Habana Blues. Uma História permeada de sentimentos e conflitos, conduzidos pela música, com um olhar sem partidarismos que mostra a veia pulsante de um país, que assim como outros tantos da América Latina, vai fluindo apesar dos pesares. Com seus prédios, seus carros antigos, sua encosta. Mostra a escolha, muitas vezes difícil que temos de fazer na busca por um sonho, o preço a pagar pelo mesmo, as dificuldades de viver numa pátria querida e ao mesmo tempo esquecida da forças para essa gente lutar pela própria sobrevivência ou sair de Cuba, com o objetivo de buscar uma outra realidade que muitas vezes lhes é negada.

Para começar a história: Ruy (Alberto Joel García Osório) e Tito (Roberto Sanmartín) são dois amigos que lutam para fazer música na cidade de Havana, Cuba, juntamente com outros amigos. Eles acabam de gravar o seu primeiro CD por conta própria e preparam um concerto para celebrar o seu trabalho em um antigo teatro abandonado e ameaçado de fechar. Enquanto correm atrás de divulgação do seu trabalho, conhecem dois produtores espanhóis, Marta (Marta Calvó) e Lorenzo (Roger Pera), a quem acabam apresentando a cidade e outros artistas. Um vôo por uma cena musical que vai além das salsas, caribenhas, mas que as unem ao rock, blues, a cena alternativa da ilha. A esperança de tornar real o desejo é oferecido pelos produtores, e que vai acabar por dividir os dois amigos na escolha a fazer.

O filme aborda as dificuldades das pessoas que vivem no país, como é o caso de Caridad, mulher de Ruy. Que tem que negociar a compra da carne do almoço, partilhar o mesmo telefone e ainda se virar com a venda de bijuterias, a qual, mal dá para sustentar a casa. Ela recebe uma pequena ajuda do envio de dinheiro de sua mãe que mora nos Estados Unidos. A saída para dar uma vida melhor aos filhos faz Caridad tentar a sorte junto a sua mãe. 

Enfim, ele traz as relações  de pessoas que buscam melhores condições de existência. Se por um lado há pessoas como Ruy, Tito e todos os demais músicos, que vivem para cantar as suas músicas e buscam serem reconhecidos, há outros que lutam simplesmente por uma vida melhor.  Esse caminho oferta duas escolhas: ser feito por contatos ou ilegalmente através de barcos.

Qual o preço a se pagar por sonho?

A possibilidade de um contrato internacional colocará em conflito uma questão comum a muitos: atender às cláusulas firmadas com uma companhia americana, dentre elas  promover um discurso contra seu país vendendo, assim, a independência da sua arte.
Esse dilema colocará em cheque o tipo de arte que eles pretendem seguir, a comercial (fornecida pelos produtores) ou a marginal, daqueles que não se submetem ao julgo do mercado e da sua maneira seguem fiel a sua essência. 

Enquanto que para Tito, cujo sonho mor de sua vida é ficar reconhecido, não importando ter que passar por cima de seu cerne, Ruy que também quer expandir sua música, contesta o contrato.  e acaba por recusar a proposta, não transformando sua música num produto de consumo.

Um novo prisma que foge do estereótipo de “Cuba suja” ou de “Cuba limpa”, defendida por diferentes correntes ideológicas. É um filme sobre sonhos, lutas, relacionamentos, dilemas, temperados com diversas claves de sol. Uma história que, guardada algumas expressividades do país, poderia ser contada tendo como pano-de-fundo qualquer parte dos países latinos americanos, daqueles que não são tidos como “desenvolvidos”.

Cuba é vida que pulsa! É a resistência de uma cultura, são as lágrimas por viver fora da mesma, a pátria que se leva dentro mesmo estando longe. Em qualquer parte, Habana Blues é uma declaração singela a uma ilha que muitos costumam caracterizá-la e pintá-la quase sempre com as mesmas cores. Não percebendo seu dueto. Ela é triste e alegre, é o paradoxo de uma vida múltipla, diversa.  Ainda que com muitos desafios e limitações, como em tantos outros países, em tantas outras ruas.

Os vários eus..

Escrito por Fabiana Reinholz

Já fui queimada na fogueira….
Nada mais pode me machucar tanto…
Fui a mais bela das concubinas…das melindrosas a mais fabulosa
A mais terrível e temível guerreira…
A mensageira, nômade errante..
O lado mais doce das faces da lua…
Um anjo, um demônio
A realidade e a mais incrível quimera…
Na dança do ventre, eu fiz flutuar os véus
Num tapete mágico eu fui voar
A fervorosa dançarina espanhola eu já fiz surgir
Todos os destinos em várias mãos eu li…
Como boa cigana as mil caravanas conduzi
Eu sou a clave de sol de todas as canções que a todos faz dançar.
O fogo e a água me possuem…
Deslizo pela terral e pelo ar….
Sou a mentira mais sincera que você pode encontrar
Uma deusa, fada, bruxa, o anjo mais feliz
O principio, o meio sem fim….
Tenho a noite como companhia e o dia como condutor..
Um pouco do riso e tristeza mesclada para não esquecer que tudo é feito de passagem…
A bolha de sabão, as asas da borboleta…
O espelho e os cacos
Sou a constante invenção de mim
Um reservatório de infinitas possibilidades..
Que abita no labirinto sem fim…

Reencontrei minha espada, meu punhal e minha capa
Logo, logo terei de volta meu OM e minha flor de lótus
Agora estou pronta para voltar para casa…

Um dia eu volto…
Ou deixo outra de mim voltar…