tantos nadas

Um ano longe, tantos e nadas de acontecimento se mesclando, se fundindo, se formando …..

Tantos sonhos, tantas vidas criadas dentro de mim. Tantos desejos, tantas vontades, tantos receios…. tantos segredos

Nada compartilhado, quase nada vivido

Por preguiça, por medo
São tantos e nadas se convergindo se confundindo

faz escorrer o tempo tão depressa que não abarca os tantos, retendo muitos nadas

Ausência das coisas

Desde 2009 e por todo ano de 2010, estive ausente daqui e de tantos outros lugares. Um retiro para dentro e fora de mim.

Não foi só a falta de inspiração ou tempo, mas tantos acontecimentos entre o fim e o início desses anos que algumas “coisas” foram para longe. Digo coisas por que se torna complicado dar nome aquilo que aconteceu e sumiu.

Foi um período conturbado e sereno. Conturbado por conta do trabalho de conclusão, a apresentação do mesmo, do qual sai com distinção. E a fase de ostracismo que seguiu depois, aí sim veio a preguiça e a falta de algo que não sei.

Aos poucos as “coisas” vão se acordando dentro e fora, e aos poucos retomo esse espaço que ficou abandonado. Pensei até em começar um novo, mais centrado e não tão avulso, mas deixa para lá. Continuo por aqui, tentando deixar de lado os rabiscos feitos em papel.
Tentando tornar esse espaço naquilo que se perdem por ai.

Passando o meu “inferno” astral, começo meu ano novo que espero que venha repleto “coisas” novas.

Até lá

Os Três Mal-Amados

João Cabral de Melo Neto

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Desapego de você

Deixar partir alguém a quem dentro de nós faz gritar o não
Desprender aos poucos das lembranças mesmo as mais doces
Por mais que venha a dor,
É preciso limpar a “casa”
Deixar entrar uma nova luz Desprender as “borboletas”
Desejando felicidade e um leve toque de sorte para o que fica desapegado de nós
Um novo caminho, outros girassóis

A melancolia dos dias cinzas

A sensação das pernas bambas por um simples encontro do acaso
Como se na noite anterior em que por breves momentos compartilhamos o mesmo espaço não tivesse tido qualquer significado
Mas foi assim, sob a fina garoa, quando os olhos por um curto espaço de tempo se cruzaram e um simples aceno.
O lampejo do desejo adormecido durante meses de silêncio e ausência, florescendo novamente, mais calmo e sereno, contudo longe de ser aquilo que definimos como amor.
Também não é reflexo dos “nervos” a flor da pele, pelo menos não no sentido alucinante causado pela volúpia. Foi algo mais terno e ao menos tempo pulsante.
Um simples instante para despertar algo em mim que andava dormente, algo que não sei explicar o que é, mas que me fez bem.
Ou talvez tenha sido a chuva, o dia cinza, as sombrinhas multicoloridas desfilando pelas ruas e calçadas de um porto-alegre nem sempre feliz.
Adoro dias tom de cinza

A vidraça fechada,
A chuva brincando na janela,
Tento afugentar o sono que vem com o marasmo, inúmeras xícaras de café, vício que há tempos me acompanha e do qual vou desistindo de lutar.
Querendo sair daqui, mas, aff, obrigações não deixam. E o relógio parece conspirar contra meu desejo.
Sem tempo para ficar sob a chuva, então contemplo distante, mais um dia pintado de cinza.

Languidez

Para aqueles dias em que a inspiração está a flor da pele, pequenos pedaços que sopram da alma vem até a nós, como esse pequeno poema de uma pessoa muito especial para mim:

 

“Pintei todas as taças de dourado sol, e derramei vinho sobre elas, tomando a decisão de logo bebê-lo, com receio que o sol sugasse todo seu álcool….De nada adiantou, era tarde demais, apenas lábios rubros, rubor na face e desejo na carne…”   Maila Alves Teixeira

 

rosavinho

Pedaços

Desejo de sair pelo mundo contando histórias, descobertas, fundir com outros povos
Falar da vida de pessoas reais, realmente vivas e não da plastificação estampadas nas revistas
Ir por diferentes caminhos, atrás das mãos calejadas, rostos pintados pelo sol
Dos índios, andarilhos latinos, dos sorrisos que superam as lágrimas, da dor
 Seguir no fluido das veias que ainda continuam abertas
Narrando contos/crônicas de muitas estrelas, das heranças deixadas
Sentir o cheiro da terra, o humano ser surgir.

———————————————————————————————

Meus castelos de areia soprados pelo vento, esquecidos pela moção do tempo.
Não lembro mãos dos dias em que acreditava ainda em conto de fadas
Na verdade finais felizes sempre me pareceram quimeras e de um certo enfado.
Antes que pareça com descrença ou mágoa, por algo vivido e despedaçado
Tento me explicar, mesmo sabendo que ninguém tem nada a ver com isso.
Não há dor, desamor ou qualquer sentimento de tristeza
O que acontece é que às vezes a melancolia surgida de algum recôndito vem brincar com os dias,
Do “canto do sorriso” surge a lágrima e do nada o coração entristece e esfria
Fazendo ir embora o Oasis, deixando tudo deserto,

———————————————————————————————

Quando o prazer toma conta, e o amor sai por entre a fenda aberta
O vazio vem e impera, e nasce a procura do preencher o espaço do nada com quimeras
Criando frágeis castelos de sonhos
 Que a realidade não pode suportar
Mais uma dose de ilusão, só mais um fragmento de utopia.

mais do mesmo

Não sei o que me dá em certos dias onde a nostalgia vem ditar a ordem do espaço
Ocupando boa parte da memória, pedindo atenção.
Ela vem e bagunça tudo. Resoluções já tomadas escoam e se perdem no vácuo.
Nesses dias, que às vezes, entram noite adentro tudo parece planar.

Minha mente se desfoca do resto que não chama saudade…

A esperança que sorri

By Fabiana Reinholz
-Vês?
-o que?
– olha, olha bem, vês?
-Não consigo ver nada, do que estas falando?
– Ora, tenta, é pequena, mas está tão perto.
– Mas tentar ver o que? Não há nada…
-Ficastes cego?
– Não, deve ser tu  que tenhas ficado louco, vendo coisa no vazio.
-Mas não há vazio, muito menos loucura; mas sua cegueira.
-Como assim minha cegueira, se não é loucura, deve ser sua mente lhe pregando uma peça.
– Não, já disse que não é nada disso, tome pegue essa luneta. Agora vês?
-Não consigo ver nada.
-Tente os óculos. E agora?
-Ainda nada.
-Desisto.
-Espere,
-o que?
-(comprimindo os olhos, limpando a retina) Acho que vejo um tanto quanto embaçado.
-Continue, um pouco mais de esforço
-Agora sim, vejo. Tão pequena, tão frágil, tão perto/distante a sorrir.

Ao coração que despedaça

 marip

Hoje ela não quis tirar os sapatos ao se deitar.
Os olhos vermelhos, a garganta seca
A roupa molhada com as lagrimas que corriam mais por sua face borrada pela maquiagem.
A ilusão do amor, ao seu redor tudo despedaça.

E dos seus sonhos tão lindos, nada mais de amor ficou
A garganta seca, o coração comprimido,
Ao ver passar a ilusão do amor amigo
Ela não traz mais o sorriso, nem o desejo
Das chuvas de pingos de amor
Agora arranham suas faces

Mas ela sabe que tudo passará
Contudo agora, ela se joga na cama
com seus sapatos de passeio
e tenta consolar o seu coração que despedaça.