O anjo torto

Texto de Débora Birck

Minúsculo vivente entre rinocerontes me reconheço e falho e insisto. E insisto porque insistir é minha insígnia.

Não lembro quando foi a primeira vez que ouvi falar em Torquato Neto. Faz algum tempo, pois, foi antes de adquirir o álbum Panis et Circenses da Tropicália ou de ouvir a música Cajuína que Caetano fez em sua homenagem. Certamente cheguei a ele por conta da poesia, aquela dos anos 60/70 que está sempre na mira junto com os demais balaios marginalizados e espalhados por aí. Se não me engano li antes de ouvir algo assim: “quando eu nasci um anjo torto, muito louco veio ler a minha mão não era um anjo barroco era um anjo muito louco com asas de avião eis que esse anjo me disse com um sorriso entre dentes vai, bicho desafinar o coro dos contentes” – let’s play that, uma referência a Drummond e Souzândrade que ganhou melodia de Jards Macalé, o Macau.

Um cara de Curitiba chamado Toninho Vaz, catou o que conseguiu a respeito desse poeta, entrevistou uma cambada de gente e nos saudou com o livro Pra mim chega, a biografia de Torquato Neto publicado pela editora Casa Amarela, São Paulo – 2005. Achei o livro, li a orelha assinada por Luiz Carlos Maciel e Toninho me ganhou no prefácio.

Nascido sob o signo de escorpião (assim como nosso querido colega Tiago Jucá) daí algumas características insondáveis de sua (s) personalidade (s), Torquato veio ao mundo no dia 9 de novembro de 1944 depois de ser arrancado a fórceps do útero materno durante uma luta sangrenta em uma hora de parto inimaginável de uma época sem cesárea. Passado o sofrimento daquela mãe, o menino cresceu e revelou preferência à leitura ao invés dos esportes (bingo!). Foi um moleque travesso. Queria descobrir nas ruas o que Teresina tinha a oferecer. Anos depois ele foi terminar o colegial em Salvador e lá conheceu e se juntou a trupe que mais tarde entraria para a história cultural do país. Foi assistente de Glauber Rocha, conheceu Caetano, Bethânia, Gal , Gil e acabou como um importante ideólogo do movimento Tropicalista. Com o artigo “Tropicalismo para os principiantes”, Torquato divulgou diretrizes, nomes e funções para cada integrante do movimento e explicava a origem da palavra: – o certo é Tropicália. Devemos evitar os ismos, pois não se trata de mais uma escola como as anteriores. Ela vai se autodestruir antes que algum mal lhe aconteça

O mal que aconteceu foi que Torquato não durou muito tempo. Um artista que não encontrou a saída: “vou escutando. e vou guardando pra frente, não sei em que vou dar, mas posso dizer que não quero saber, mas não sei. em verdade estou num pânico medonho, estou guardando demais, onde fica a saída?”

Aos poucos

Há tempos que não vinha aqui, não por falta de tempo ou vontade. Outros planos e acontecimentos vieram. Começando pelo TCC  (do qual sai com distiñção) e depois planos para um futuro mestrado, adiado para o ano que vem e quem sabe em outro Estado.

E também o fator preguiça, mas aos poucos vou retornando. Bem aos poucos. A seguir um texto belo da grande amiga, Débora Birck, a “menina” dos olhos inquietos.