Redes Sociais digitais: A construção de outros “nós”

O que você está lendo, o que está fazendo, pensando, seguindo, vendo, ouvindo, quem é você?
 
Essas são algumas perguntas que sedimentam e configuram aplicativos como Orkut, Facebook, Twitter, MSN, Skype, blogs e afins. Espaços que tem como finalidade a expansão das interações interpessoais, mantendo e ampliando os laços sociais, a visualização pessoal e a propagação da informação. Uma enorme teia, onde a internet se configura como aponta o sociólogo espanhol Manuel Castells, “como um dos tecidos de nossas vidas”, e que a cada dia vai atraindo novos usuarios e interconectando outros nós para essas redes sociais digitais. Mesclando público e privado, as redes (seguindo a lógica da internet) transforman-se numa poderosa ferramenta para a democratização da informação, onde impacto positivo e negativo tornam-se o mesmo ponto convergente: a total liberdade na rede e a visibiliadade das várias versões, possibilidades que requerem cuidado e atenção.
 


A relação mediada pelo uso da internet trouxe um novo momento para as relações interpessoais. Modificou também a maneira de ver, consumir e fazer comunicação, prinicpalmente através de aplicativos que constituiem as “novas redes sociais”, ou as redes sociais digitais. Antes de falar dessa mutação, é preciso entender o que são as redes sociais, e como elas reconfiguram o individuo e a sociedade.
 
Para Suely Fragoso,  Professora e Doutora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Vale do Rios dos Sinos (Unisinos) é rede social é o conjunto de atores sociais conectados por laços sociais, que são formados, mantidos e reforçados (ou não) através de interações sociais. “Ou seja, as redes sociais somos nós e nossos amigos, vizinhos, parentes, etc.”, destaca. A pratica de redes sociais é uma atividade antiga feita e mantinda bem antes do surgimento da internet, através de telefonemas, cartas telegramas e nas conversas ao vivo, comenta Suely. O advento das redes de relacionamento on-line, facilitaram e expandiram as possibilidades de interação social. “Essas ferramentas potencializam a manutenção e a expansão dos laços sociais, além de ajudar a visualizar as redes sociais que, novamente, são formadas pelas pessoas, empresas, instituições, e seus amigos, parentes, parceiros”, explica Suely.

Dentro desse contexto, o “eu”, ou individuo, se multiplica por avatares, perfis ou outras formas de demarcação da sua personalidade. “A identidade é mais maleável, onde as pessoas só se dão a conhecer se quiserem e na medida em que experimentam. Elas representam parte de si mesmas na Rede, procurando apresentar facetas de sua personalidade moldadas a determinadas impressões que querem causar na audiência”, acredita Raquel Recuero, professora do curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Pelotas, Rio Grande do Sul (UCPel).

Nesse espaço “público” e “privado” se misturam. Onde as pessoas muitas vezes, pela relação que possuem com a máquina – eu diante de uma tela – não se dão conta da multidão que existe do outro lado, e que pode ter acesso as informações que são publicadas, aponta. “Assim, parece-me que muito daquilo que era para ser privado torna-se cada vez mais público pela ação da tecnologia e pela influência dela”, observa Raquel.

Onde também os relacionamentos se transformam e a frase “Quero um milhão de amigos, Quero irmãos e irmãs”, da música Vamos Fazer um Filme, da banda Legião Urbana delineia bem o desejo convergente das redes de realcionamento, onde as relações interpessoais são amplificadas, mas que precisa de cuidado e atenção. “A tecnologia é um recurso ímpar no mundo moderno e se usada de maneira equilibrada pode trazer grandes benefícios como amizades, relacionamentos, experiências profissionais, ampliação de conhecimentos e tantas outras coisas”, argumenta a assessora comunitária e usuária das redes de relacionamento, Débora Birck.

Nessa interação entre os usuários e a relação que se estabelecem, a disseminação é facilitada.  Contudo, como salienta Suely, esse mesmo beneficio de democratização do conteúdo, através da visibilidade que ela confere, acaba também se tornando o seu ponto negativo e vulnerável. “Esses aplicativos são ótimos porque potencializam as interações sociais, que geram capital social, servem para a solidariedade, para a divulgação de serviços, de informações úteis – mas também servem para prejudicar, mentir, roubar, vender armas, comprar fotos de crianças. A internet em geral sofre dessa contradição, porque ela amplia e expande muitas possibilidades de comunicação, independente de elas serem boas ou não”, ressalva a doutora.
 
Sociedade Midiatizada
 
Nessa vitrine social, o Brasil é apontado como o país que mais faz uso dessas ferramentas, seja no espaço de tempo quanto de acesso. Segundo pesquisa divulgada em março desse ano pela empresa Nielsen, em números, o país corresponde a 80% de uso em redes de relacionamento como Orkut e o Facebook, e quase um a cada quatro minutos de navegação na internet. Em seguida vem Espanha (75% de uso das redes de relacionamento), Itália (73%) e Japão (70%).
 
Outro levantamento feito pela empresa de pesquisas e monitoramento na internet E-life e a InPress Porter Novelli (veja detalhes no box),  Orkut,  Twitter,  YouTube e  Blogspot são as mídias sociais mais populares entre os entrevistados, sendo utilizadas quase todos os dias, com motivaçao de uso diferenciado. “Enquanto a maioria utiliza o Twitter em busca de informações e notícias, o Orkut é mais utilizado para manter contatos com amigos, parentes e colegas. Já o YouTube e o Blogspot são utilizados como passatempo e como forma de divulgar o conteúdo pessoal, respectivamente”, revelou a pesquisa aplicada em julho desse ano com 1.277 questionários. (veja mais dados no box).

Os números vem de encontro a defesa que Castells faz no livro A Galaxia da Internet, onde afirma que as redes sociais ganharam vida nova em nosso tempo transformando-se em fontes de informação energizadas pela internet, por isso a afirmaçao de que a rede seria o tecido da vida. Entusiasta dessa tecnologia, o sociólogo afirma que “as redes têm vantagens extraordinárias como ferramentas de organização em virtude de sua flexibilidade e adaptabilidade inerentes, características essenciais para se sobreviver e prosperar num ambiente em rápida mutação”.

Contudo, para o pensador inglês Andrew Keen, o uso de blogs, myspace, youtube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores. Keen que já foi um dos pioneiros daquilo que chamou de “a primeira corrida do ouro da internet” nos anos 90, no livro Oculto do Amador, tece criticas a “grande sedução da Web 2.0”. “O que a Web 2.0 está realmente proporcionando são observações superficiais do mundo à nossa volta, em vez de análise profunda, opinião estridente, em vez de julgamento ponderado. O negócio da informação está sendo transformados pela internet no barulho de 100 milhões de blogueiros, todos falando simultaneamente sobre si mesmo”. 

Keen não está sozinho. No livro, The Dumbest Generation (“A Geração Mais Burra”), do professor da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, Mark Bauerlein, a internet tem deixado os jovens mais burros. Para o professor a culpa dessa “alienação”, é das “distrações digitais” – MSN, torpedos, iPod, games, Orkut. Em entrevista ao jornal o Estado de São Paulo, para os jornalistas Rafael Cabral, Bruno Galo e Ana Freitas, diz que os jovens em questões de conhecimentos gerais os jovens são ignorantes.

“Em termos de inteligência pura, eles são tão espertos quanto sempre foram. Mas quando você vê o conhecimento deles de história, literatura, filosofia, eles são completamente ignorantes. Isso porque a maioria do tempo livre dessas crianças é gasto com ferramentas digitais que simplesmente repercutem umas as outras. Eles não leem jornais, eles mexem no Facebook. Eles não leem livros, eles mandam SMS. Isso tira deles o tempo que era destinado para a formação intelectual”.

Em entrevista à revista super interessante para o jornalista Eduardo Szklarz, em setembro de 2008, Bauerlein diz que o problema não é a tecnologia, e sim como a pessoa a utiliza. “Segundo o instituto Nielsen Media Research, nove entre os 10 sites mais populares entre os adolescentes são redes de relacionamento. É isso que as ferramentas significam para eles: um meio social.Hoje, um garoto de 15 anos vai para casa e se fecha no quarto para falar pelo celular, entrar no blog e mandar mensagens de texto. Os adolescentes estão formando seu próprio universo, longe da realidade adulta. O desafio é quebrar o domínio de redes de relacionamento”, argumenta.

Na opinião de Débora as redes de relacionamento não causadoras de ‘alienação’, o problema em sua opinião estariam na dependência do mundo virtual. “O que acontece em alguns casos, é a dependência de algumas pessoas pelo mundo virtual, Nesse caso eu acredito que seja prejudicial ao crescimento e ao enriquecimento humano que também depende da relação com a vida real”, acredita a asssessora.
 
Para muito além do laço social – o dilúvio informacional
 
“Quando Noé, ou seja, cada um de nós olha através da escotilha de sua arca, vê outras  arcas,  a  perder  de  vista,  no  oceano  agitado  da comunicação  digital.  E  cada  uma  dessas  arcas  contém  uma  seleção diferente.  Cada  uma  quer  preservar  a  diversidade.  Cada  uma  quer transmitir. Estas arcas estarão eternamente à deriva na superfície das águas.” A analogia a Arca de Noé foi feita pelo filósofo francês, Pierre Levy. No seu livro Cibercultura (1999), esse novo dilúvio trazido pela internet (e consequentemente inclui as redes sócias digitais) ao invés de submergir àqueles que não foram selecionados, abarca a todos, constituindo diversas arcas informacionais.
 
Nunca, antes, na história da humanidade há tantas informações circulando pela rede. Para o sociólogo e professor da Faculdade Comunicação Cásper Líbero, Sérgio Amadeu da Silveira, as redes sociais on-line permitem que os seus conteúdos sejam feitos pelos próprios participantes dessa rede e em geral asseguram uma grande interatividade e uma comunicação mais horizontalizada do que as mídias tradicionais. “A rede é muito mais democrática porque ela dá força ao individuo, ao cidadão comum. Na rede o difícil não é falar, e sim ser ouvido”, aponta.

Daniela Cristina Machado , estudante do último semestre de jornalismo na Unisinos, ressalta que uma das maiores, e melhores, características das redes sociais é ser um espaço democrático. “Os atores sociais passaram de receptores para produtores ativos de informação e criaram uma rede colaborativa entre eles”, atesta a estudante de jornalismo”, expõe.  De acordo com a estudante, os papéis estão se invertendo, agora são os internautas que sugerem pautas, enviam notícias, artigos, opinião. “Ao estar dentro das redes e comunidades virtuais temos acesso instantâneo a informação e as fonte, que estão virando produtores de notícias. Imaginar meu cotidiano sem isso, é me sentir isolada do mundo”, analisa Daniela, que está fazendo seu trabalho de conclusão sobre  o uso das redes sociais pelos veículos de comunicação para a produção de conteúdo.

Daniela chama atenção para o conteúdo que circula na rede. “Ao mesmo tempo que as redes sociais informam, elas deformam. Nem tudo que está na rede possui credibilidade, a instantaneidade pode prejudicar a apuração da informação. Contudo, as redes sociais servem como um espaço para discussão de assuntos importantes e também polêmicos”, finaliza.

Para Keen, essa proliferação de informação e conteúdo nas redes feita por amadores está destruindo a mídia “antiga”. Em entrevista a revista Época, o pensador afirma mídia tradicional vai mudar dramaticamente. “Enquanto os utópicos digitais falam sobre democratização da mídia e do conteúdo, acredito que a conseqüência é o aparecimento de uma nova oligarquia. A tão propalada democratização, na verdade, tornará o entretenimento cutural de alta qualidade menos acessível às pessoas comuns”, ressalva.
 
Keen diz não ter problema com a blogosfera se você ler o jornal antes. “A blogosfera depende de a pessoa ser familiarizada com a mídia sofisticada. Se você está familiarizado com notícias, se entende como a tecnologia funciona, a blogosfera pode ser útil”.  O problema e preocupação do pensador que o faz tecer criticar mordaz, é que  a blogosfera se torne uma fonte substituta de notícias especialmente para os jovens.
 
“Eles acreditam em tudo o que leem então me preocupo que a blogosfera se torne forte numa sociedade em que as crianças não fazem a menor idéia de como ler “através” das notícias. Elas estão perdendo sua capacidade crítica. Você sabe que o The New York Times é pró-Israel e socialmente liberal. Sabemos que o The Wall Street Journal é editorialmente muito conservador. Não há jogos, é óbvio, você pode ler através. Em muitos blogs, não”, conclui.
 
O problema aponta Amadeu, é como nós vamos identificar o que é uma informação que nós devemos considerar daquelas que são simplesmente boatos, inverossímeis ou incorretas. “E ai as redes sociais são importantes porque elas permitem que se conviva com avatares, perfis que mesmo não sendo correspondentes com a identidade civil das pessoas que escrevem, através do acompanhamento daquilo que eles escrevem ou produzem no dia a dia, percebe os que tem uma reputação confiável dos que não tem.
A reputação nas redes elemento chave nas redes”, pontua.
 
Complementando Suely diz que o fator credibilidade está associado à própria natureza do laço social – “é o meu amigo quem diz, ou mesmo a universidade em que eu trabalho, o jornal em que eu já trabalhei, ou seja, não é uma pessoa ou instituição abstrata, mas uma que eu conheço”, expõe.  
 
Segundo a doutora, ainda temos um caminho enorme a percorrer para desenvolver capacidade crítica compatível com o que seria necessário ou desejável. “Ainda assumimos uma postura muito ingênua tanto diante da mídia institucionalizada quanto das nossas redes sociais. Mas eu tenho esperanças – há 20 anos, quando eu comecei a lecionar, alunos de graduação de comunicação ficavam surpresos quando descobriam quantas alterações era possível fazer numa foto: emagrecer, engordar, aumentar a cabeça, diminuir as mãos, etc. Hoje um número enorme de pré-adolescentes já sabe ‘corrigir’ suas fotos antes de colocar na rede e, por conseguinte, cada vez mais pessoas tem consciência do que é possível fazer”, descreve.
 
Ainda de acordo com Suely, os riscos da informação errada podem a médio e a longo prazo,  ser pela possibilidade de diversidade de fonte/versão da informação. “Acredito que só quem ouve muitas vozes tem condições de pensar. Quem já recebe tudo ‘filtrado’ e confia no ‘filtro’ não está pensando. Quem ouve de tudo talvez seja mesmo ‘obrigado’ a pensar – e note que isso pode não ser agradável, porque pensar é trabalhoso, muitas vezes é dolorido. Pensar não é confortável, mas é libertador”.
 
“As redes informacionais são revolucionarias, mas não necessariamente utópicas, elas não vão resolver todos os problemas, mas melhoram algumas situações, democratizam muito mais as possibilidades de fala”, finaliza Amadeu. 

O futuro das redes sociais
 
Na opinião de Suely, embora essa ‘febre’ de redes sociais tenda a esmorecer (até por saturação), eu creio que essas ferramentas vieram para ficar. “Claro que os sistemas de rede social podem mudar como mudaram e continuam mudando os telefones e a TV, bem como todas as ferramentas de comunicação e as mídias – mas a base da idéia, que é facilitar e expandir a interação entre pessoas, tem tudo para continuar sendo um sucesso”, conclui.

“Não sei se os sites de redes sociais vão existir por muito mais tempo e nem se vão acabar. É complicado fazer esse tipo de previsão. Mas seja qual for a plataforma tecnológica, penso que essa hibridação com o social, com as relações humanas, essa sim, deve permanecer e emaranhar-se cada vez mais na vida contemporânea”, comenta Raquel. 
 
  
Box: Outra pesquisa mais recente, feita pela empresa de pesquisas e monitoramento na internet E-life e a InPress Porter Novelli, apontam o crescimento de outra ferramenta, o Twitter. De acordo a pesquisa dos 1.277 usuários, 87,2%, acessam o Twitter de cinco a sete vezes por semana; já o Orkut tem acesso de 72,6%. Contudo a rede de relacionamentos, Orkut ainda é a primeira colocada em relação ao número de cadastrados, ficando com 89,6%, seguido do Twitter com 80,1%, YouTube o terceiro, com 79,6%. O site facebook tem a participação de 57,6%.

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2 comentários sobre “Redes Sociais digitais: A construção de outros “nós”

  1. Boa tarde,

    Achei muito interessante o texto acima, com abordagens práticas e explicativas. Gostaria de citar este artigo na minha monografica do curso de Comunicação Social, quem é o autor? Não vejo referências bibliográficas nem contato.
    Fico no aguardo.
    Atenciosamente,
    Luiz filipe.

  2. Olá,

    Achei bastante interresante o texto exposto, foi muito verdadeiro pois realmente destaco pontos importantes do nosso cotidiano.
    Parabéns para o autor, fico feliz com o seu desenvolvimento ou sua ideia proposta.
    Maraísa.

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