Indolência

“… ao perceber coisas erradas, não passe com indiferença…” Maiakovski

A breve visita ao mundo lá fora, procurando dar asas a inspiração que veio visitar o meu travesseiro num inicio de sexta que de longe vinha com breves sorrisos de sol.

Nessa incursão, o olhar pousa por uma cena que prende sua atenção. Um ato que por bons hábitos, que “nasce” depois do primeiro choro nos é passado: o banho. 

E porque algo tão normal e necessário atraiu os olhos?

Talvez pelo simples fato dele se dar em via pública, no lago dos açores em frente ao prédio onde trabalho. Um morador de rua banhava seu corpo e suas vestes em águas nada cristalinas. Fato que acontece quase todos os dias. Mas mesmo assim os olhos ao olhar para paisagem que se mostrava da sacada sempre pousava nessa cena e se fixam.

E um sentimento, longe da pena ou da repulsão emerge algo não definido, nada que inquieta-se por muito tempo o coração. Mas algo que faz despertar da indolência que espreita e que por muitas frestas tomar conta do corpo, dominar o espírito.

Desperta um leve sentimento de revolta com a situação que se passa com o Estado (RS), que deixa e transforma o Alegre em Porto Caos. Onde uma minoria barulhenta, fala e grita por uma maioria que permanece silenciada, seja por vontade, por medo, por falta de coragem ou por outro motivo qualquer. Enquanto uma certa senhora se diz ameaçada, quando a verdadeira ameaça cada vez mais vai tomando forma, se revelando: Yeda Crusius.

Enquanto milhares lutam por seus direitos, professores, alunos, policiais, servidores públicos, aposentados, bancários, pais, etc. outros tantos no balcão de negócios políticos tecem suas teias conspiratórias beneficiando um governo obscuro, para não dizer sujo. Que nem a água, mesmo suja,  que banha o morador de rua nessa manhã poderia limpar.

Foto Débora Birck

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Somos limitados por aqueles que deveriam garantir não só a liberdade como a igualdade. Somos tolhidos e boicotados na nossa essência se ser, de exercer nossa voz. Talvez fosse mais fácil, pratico cômodo até, ficar vegetando e ruminando, deixando os anzóis atravessados na garganta. Mas os poucos, e espero que cada vez mais, os anzóis incomodem a todos e nos reunimos a essa hoje pequena maioria.

Já que talvez não consigamos nos livrar, a pelo menos diminuamos o gosto do fel, faça, os barulho, para que no futuro próximo não sejamos mais tão negligencialmente  e abruptamente vilipendiados.

E Juntos, seremos paredes pinchadas de romantismo, contestação e revolta. E seremos sempre assim, mesmo que seja nos nossos espaços, com nossas vozes que não se poderá calar.

Reproduz agora um texto de uma grande amiga, que apesar de já ter transcorrido cinco meses é ainda tão verdadeiro, com vocês, Renata Machado.

Foto Renata Machado   renata-machado1
October 16, 2008
Liberdade, abre suas asas sobre nos
Antes de ser de esquerda ou direita, eu sou a favor da liberdade. A liberdade de ser o que quiser e ser respeitado por isso. A liberdade de se identificar com uma causa e ter o direito de lutar por ela. A liberdade de fazer escolhas e de escolher ficar do lado da minoria.

Hoje é Dia Internacional de luta pela Soberania Alimentar, que é o direito que todas as pessoas têm de se alimentar decentemente. Durante todo o dia houve manifestações em Porto Alegre e eu acompanhei tudo, por conta do meu serviço.

Na parte da tarde foi realizada a 13ª Marcha dos Sem, que reuniu em torno de 8 mil trabalhadores, para protestar contra a corrupção, a crise dos alimentos, o descaso com os servidores públicos e a criminalização dos movimentos sociais.

E eu fiquei chocada com o modo que a Brigada Militar tratou os manifestantes. Quando chegamos na esquina do Palácio Piratini, os policiais que acompanharam toda a Marcha, alopraram. Bloquearam a passagem do carro de som e partiram para a agressão. Foi horrível. Um absurdo. Soltaram bombas de efeito moral, machucaram pessoas, usaram tiro com bala de borracha.

Eu vi isso tudo, chocada, de cima do carro de som. Já participei de várias manifestações, mas nunca tinha visto tamanha violência e truculência. Fiquei com raiva daquela atitude e com vergonha da sociedade que vivemos.

Não acredito que um produtor rural que saia de uma cidade do outro lado do Rio Grande do Sul, atravesse o Estado em ônibus sem o menor conforto, queira armar confusão. O mesmo penso dos professores estaduais, do pessoal do Movimento Sem Terra, da Via Campesina… Há muita gente estudada, politizada e culta nos movimentos sociais. Estão longe de serem marginais. Apenas escolheram lutar pelos direitos que todos deveriam ter.

Quando eu falo que sou a favor da liberdade, é da liberdade individual e da liberdade de cada grupo que compõem uma comunidade. E esses, tem todo o direito de se manifestar se o Estado não oferece condições de uma vida digna.

O povo brasileiros sempre foi um ativista nato, é só olhar para a nossa história, quanta revolução já fizemos? Quantas vezes já fomos para a rua? O problema é que na época da ditadura, as manifestações acabaram, foram duramente reprimidas…

Quando o regime militar acabou, o estrago já estava feito, já tinham nos convencidos que “brasileiro é pacífico, é bonzinho”, “que o Brasil é o país do futebol e carnaval”, “que não tem memória”… Acabamos achando que qualquer pessoa que não se conforma com uma situação, é um marginal.

O que vi hoje, não tem explicação. Revolta. Como jornalista, fico chocada de como a mídia consegue alienar, enquanto deveria informar. Ao invés de ampliar os horizontes, limita. Onde está a função social da comunicação?

Agora, o pior de tudo, depois que a manifestação acabou, me dirigi com uma colega, que é socióloga, para pegar um táxi ao lado do teatro São Pedro. Entramos no primeiro táxi, o motorista nos perguntou se estávamos no protesto, ao saber que sim, falou: “descem porque eu não vou levar marginal!”. Saímos, sem acreditar no que estava acontecendo. No segundo táxi a mesma coisa: “marginal não entra”.

É inaceitável taxar manifestantes de marginais e tratá-los como animais… E as pessoas que resolvem se manifestar fazendo greve de fome? Tem coisa mais pacífica que não comer? Deixamos os taxistas para lá e fomos a pé, cansadas e revoltadas. Não com aqueles motoristas, nem com a Brigada Militar, mas com a falta de liberdade que assola a sociedade hoje em dia. Liberdade de ser o que é. Só.

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Desapego de você

Deixar partir alguém a quem dentro de nós faz gritar o não
Desprender aos poucos das lembranças mesmo as mais doces
Por mais que venha a dor,
É preciso limpar a “casa”
Deixar entrar uma nova luz Desprender as “borboletas”
Desejando felicidade e um leve toque de sorte para o que fica desapegado de nós
Um novo caminho, outros girassóis

A melancolia dos dias cinzas

A sensação das pernas bambas por um simples encontro do acaso
Como se na noite anterior em que por breves momentos compartilhamos o mesmo espaço não tivesse tido qualquer significado
Mas foi assim, sob a fina garoa, quando os olhos por um curto espaço de tempo se cruzaram e um simples aceno.
O lampejo do desejo adormecido durante meses de silêncio e ausência, florescendo novamente, mais calmo e sereno, contudo longe de ser aquilo que definimos como amor.
Também não é reflexo dos “nervos” a flor da pele, pelo menos não no sentido alucinante causado pela volúpia. Foi algo mais terno e ao menos tempo pulsante.
Um simples instante para despertar algo em mim que andava dormente, algo que não sei explicar o que é, mas que me fez bem.
Ou talvez tenha sido a chuva, o dia cinza, as sombrinhas multicoloridas desfilando pelas ruas e calçadas de um porto-alegre nem sempre feliz.
Adoro dias tom de cinza

A vidraça fechada,
A chuva brincando na janela,
Tento afugentar o sono que vem com o marasmo, inúmeras xícaras de café, vício que há tempos me acompanha e do qual vou desistindo de lutar.
Querendo sair daqui, mas, aff, obrigações não deixam. E o relógio parece conspirar contra meu desejo.
Sem tempo para ficar sob a chuva, então contemplo distante, mais um dia pintado de cinza.

27

Talvez não seja a melhor forma de iniciar, mas não importa, vou fazer assim mesmo.

Domingo de manhã, depois de uma ressaca de lágrimas, um remédio para aliviar a cólica e algumas horas de sono mal recuperadas de dias insones, enfim o dia chegou novamente.

Mais uma passagem, outro aniversário e nada da minha mãe bater na porta do quarto às 10 e 45 como quase sempre faz em cada primeiro de março. E ela não vinha…

Distante das dores que antecederam minha chegada, numa segunda-feira de sol, nascimento sem choro, o que me valeu as primeiras palmadas.

As lágrimas  vêm mais fáceis agora, sem contato físico direto, mas causadas às vezes por sentimentos obscuros e por pequenas magoas e alegrias que o tempo vai tratando de administrar.

E das dores, as alegrias passageiras, as comemorações com direto a quase todos os anos com bolos, balões e todos os adornos de comemoração. Minha mãe sempre foi meio exagerada quando se trata de comida, e nessas ocasiões a casa sempre foi cheia. Até mesmo sete anos depois, quando nasceu a minha irmã, as festas continuaram na mesma proporção. A última “grande” festa foi aos 15 anos.

Depois, a passagem passou a ser celebrada um pouco mais intimista, mas sempre com bolos e pessoas queridas.

Voltando, para o mundo hoje. E minha mãe não vinha para dar o abraço, e voltei ao sono quando Com o elemento surpresa, de amigos, da família, o presente surpresa, 11 da manhã, o sono desperto pelo carinho, ela finalmente veio.

Carinho e afeto que foram se complementado ao longo do dia com o acréscimo de mais pessoas doces. Ficou a falta sentida de algumas pessoas, mas nada pode ser totalmente candidamente perfeito.

E foram as “águas fechando o verão” que vieram saudar meus 27 anos, cercada de risos e doces-amores. Um dia cinza mais colorido, as lágrimas ficaram dentro, dando espaço para o brilho e para a festa interior.

Com direto a bolo com claves de sol. A música que tocava e lavava a melancolia que dias comemorativos sempre me causam.

PS.: Este post vem no lugar do discurso que não consegui proferir, vem agradecer ao carinho e amor das pessoas mais importantes da minha vida.