Eu vi seus olhos chorarem gotas de sangue

Afrodite em frente ao espelho não percebe os cacos a sua volta. Envolta ao fino cetim e seda que cobrem seu corpo, adorna seus longos cabelos.
Nem ao menos nota quando Pandora descuidada abre a caixa.
Enquanto isso, Eros, deixa de lado suas flechas, toca sua doce flauta, fazendo as ninfas dançarem.

Atena ensina o povo das estrelas sobre razão e paz. Baco se diverte rodando e rolando pela grama com sua taça em mãos. Ares traça planos de guerra.
Apolo e suas adivinhações, Artemis admirando a Lua, Hefaístos o fogo, Hermes segue sendo o mensageiro, Dionísio protegendo a vindima enquanto Diana caça.

Hades a cuidar dos infernos, Poseidon dos mares, Héstia dos lares, Deméter, a terra. E Zeus, tentando apaziguar os ânimos de Hera.

Sob urano, bem acima de Gaia, tudo segue em confusa paz, ordem e ambrosias.

 

Enquanto aqui, abaixo, muito alem do paraíso, os homens se perdem em meio ao caos.  Onde as tragédias viram circo. Os dias tropeçam em dejetos de dissimulações. A crise estourando em bolhas, ora econômicas, ora sociais, políticas, ou todas juntas. A ampulheta há tempos se quebrou e não temos Perseu pra liquidar nossos monstros, Teseu para liquidar com os nossos minotauros escondidos em intrincados labirintos, nem Édipo, muito menos Hércules pra nos libertar de nossos grilhões invisíveis.

Nossos dias tragados pela pressa, pelo leve e mascarado egoísmo e pueris leviandades ainda abrigam resquícios de compaixão, ternura e amor/calor humano, lembrados principalmente nos meses de dezembro, quando somos afetados pelos ares que rondam essa época, da qual eventualmente nos lembramos de seu significado, que tem como seu maior signo, o nascimento de Jesus (que ficou até agora fora dessa história porque veio muito tempo depois dos deuses gregos). O crucificado, que morreu pelos nossos pecados, o reencarnado.

A quem inúmeras vezes usamos seu nome em vão, a quem em nome Dele, travamos as mais imbecis guerras, a quem em nome justificamos tudo. A quem esquecemos os verdadeiros ensinamentos. A quem nos perguntamos onde está quando desastres/fatalidades nos acometem, quando as mesmas são provocadas por nossa constante e cega burrice, que fabrica monstros, que coloca parvos no poder. Que não aceita, que vilipendia o que não cabe na visão curta que temos do mundo.

Perdemos tempo com discussões que nunca levaram e levarão a nada. 

Sejam Deus, os Deuses do Olimpo, de Roma, do Egito, do Oriente ou na inexistência dos mesmos, enfim. No esquecimento, seus olhos choraram gotas de sangue.

Cremos, muitas vezes sem crer, esperando um milagre cair dos céus, enquanto acomodados vamos deixando a fome, a miséria lá fora, nos consolando com as parcas esmolas que ofertamos. Esperando que aqueles que nos criaram resolvam aquilo que vamos destruindo nessa tragicomédia nada grega.

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