Tempo presente

O passado guardado numa caixa de sapatos. Minha caixa de pandora que raramente quero abrir. Não que o que vivi tenha sido tão ruim que não possa vir mais vezes à tona. Ao contrário, há no meio de tudo doces lembranças, feridas e uma leve desordem que me fizeram aprender, crescer, outras que foram e são como um bálsamo, que ainda acalenta os dias em que parece que tudo vai desmoronar.

Nessa caixa, as marcas habitam. Posta em um lugar bem alto que dificilmente alcanço e onde há tempos deixei. É preciso deixá-las ser o que são como fotos amarelas em um álbum puído. Deixar posto em chamas as lembranças mais doídas que nada tem a acrescentar a caixa.

Mas em circunstâncias especiais, em momentos raros em que ela desce e a abro, limpo, deixo-a respirar e ela volta ao seu tamanho normal, a dimensão exata para não se fazer esquecer do que vivi, servindo como alerta, como apreço, como um consolo. Mas somente isso, e a caixa volta ao seu lugar, afastado do meu presente.

Amores furtivos olvidados em sombras, frases, cartas, amigos que se perderam na penumbra e na pressa minha, dos incontáveis sonhos irrealizados. Músicas, poemas, velhas fotos, cartões, postais; sentimentos, livros empoeirados na estante, enfim todas essas partículas de existência que concretizam esse passado vivo. No silêncio, guardadas e transformadas pelo tempo.

Um lugar abrigado, onde faço visitas esporádicas quando fico sozinha e distante do mundo. Ambiente de acumulo de sentimentos, experiências, momentos. E na perspectiva desse passado vivo, desses fragmentos cristalizados que não foram perdidos ou descartados (já que é impossível guardamos tudo, o que é relativamente bom em certos casos) é que não podemos deixá-lo se perder, de vez e ser revivido (esporadicamente) para que não me torne um amontoamento de angustias e mágoas.

Como tudo o que já foi vivido suscetível à deterioração do tempo, mantenho essa caixa comigo, distante afinal, são pedaços que já foram meus e volto para o hoje, tempo que preciso sentir, trilhar, viver, pois depois de passado ele pertencerá a caixa.

                                                    

tempo desconexo

tempo desconexo

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Enquanto o ontem fica suspenso numa caixa, o amanhã, o futuro dos dias, segue como a musica dos Darma Lóvers, “uma meta flutuante”, uma bolha de sabão a brincar pelo ar, a ilusão onde fundamentamos sonhos.

Dos projetos que guardamos na gaveta para quando o futuro estiver mais próximo do hoje. Nada contra isso, às vezes ainda traço planos, contudo  eles ficaram mais próximo do agora . Do tempo que sei que posso realizá-los para que os mesmos não se tornem outra bolha de sabão de encontro ao teto, que por causa de sua fragilidade estoura.

Alimentemos os sonhos, as utopias, o chegar a algum lugar um dia, seja esse o lugar que for, ou o desejo/sonho que nasça dele. Contudo sem esquecer, da fragilidade ilusória que é o amanhã.

Abracemos, pois, o agora, para que depois esse seja uma doce lembrança colocada na caixa.

 

Fabiana Reinholz

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2 pensamentos sobre “Tempo presente

  1. Salve as caixas “quase encantadas” que nos transportam novamente para o passado. Seguir em frente e olhar o futuro é fundamental! Mas como diz uma música do Nando Reis “é bom olhar pra trás pra ver a vida que soubemos fazer!”
    Te adoro!
    Bjão

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