Uma voz brasileira nas ondas sonoras de londres

Fortalecer as famílias e comunidades africanas, tanto nacional, como internacionalmente, através de ondas sonoras transmitidas na língua portuguesa é o objetivo primordial do programa de rádio The Nia Report, veiculado no Reino Unido. A estréia foi no último dia 11 de setembro. Trata-se do primeiro programa radiofônico em língua portuguesa na terra da Rainha.

No ar todas as quintas-feiras às 19h (15h no horário de Brasília, pela Voice Of Africa Radio (Voar) a partir de Londres – com duração de uma hora – o Nia Report tem entre sete a oito minutos de participação da brasileira Juliana Dias, 20 anos, estudante de jornalismo, correspondente do programa no Brasil. A temática é diversificada, abordando questões como economia, nutrição, espiritualidade, educação, desporto, política, cultura, entretenimento, dentre outros.

Juliana conta que seu contato com o programa teve início em 2006, durante a Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora em Salvador. “Um dos responsáveis e também apresentador do programa, o jornalista angolano Cláudio Manoel, participou desse evento e desde então vínhamos mantendo contato através de e-mails, conversando sobre diversos temas, especialmente comunicação e a questão racial. No final de julho, ele me fez o convite para participar do programa, que foi lançado na semana passada”, explica a estudante.

Por intermédio da Voar e do Nia Report, a comunidade africana e negra residente em Londres tem a oportunidade de promover as suas idéias, iniciativas, empreendimentos e serviços.

Da Bahia para Londres

A participação da correspondente brasileira é através do telefone, durante um tempo de aproximadamente sete a oito minutos. Juliana faz um balanço dos acontecimentos no Brasil que envolvam a questão racial. “Posteriormente, eu e os apresentadores fazemos algumas considerações. Geralmente eles me fazem perguntas sobre os acontecimentos e da realidade brasileira para a população negra”, relata.

A repercussão do primeiro programa teve saldo positivo, segundo Juliana, que classifica como “excelente” a receptividade dos ingleses. “Durante o programa, a rádio recebeu várias ligações de pessoas elogiando. Ficaram impressionados com a participação de uma correspondente do Brasil, principalmente da Bahia, que é o estado mais negro do País, e também de ficarem sabendo sobre informações do país”, relata. A correspondente comemora o êxito de sua primeira experiência com rádio, “ainda por cima internacional”.
 
Juliana Dias cursa o 6º semestre de jornalismo na Faculdade Social da Bahia, trabalha com assessoria de comunicação e escreve para o jornal Ìrohìn (www.irohin.org.br) e para o Portal Correio Nagô (www.correionago.com.br). Esse ano, a estudante assumiu a coordenação de projetos comunitários do Instituto Mídia Étnica (IME), entidade da qual faz parte desde meados de 2007.

Você e o nada

Enquanto você caminha por estradas escuras

Não pode ver o sangue espalhado nem os muros pichados ‘gritando’um único desejo

Tudo está deserto e você sente frio

Cercado por arames farpados e elétricos

Você está só,

Seus gritos têm como resposta o eco que se perde no vácuo,

Acres lágrimas correm, no asfalto escarlate, passos que ninguém ouvirá

Sem lua e nem estrelas

Todos os seus dias serão cinzas,

Você está só num mundo que outros assim como você destruíram

Um mundo tomado por arames farpados

Onde nem mais o caos habita

Você está só perdido em labirinto de ruas desertas e turvas

Está somente você e o nada.

 

Fabiana Reinholz

“Mentiras sinceras”

Desejo o que desprezo
Suas mentiras sussurradas no meu travesseiro
Seu laço no meu abraço
Palavras congeladas na memória
Nossos medos, nossos anseios
Nossas mãos dadas, pés que namoram sob o fino cobertor.
Dos passeios por ruas e avenidas
Do clichê, mas sempre bem vindo, pôr-do-sol, em especial no inverno.
Das intermináveis conversas on/off line, do aconchego de nossos lúdicos silêncios,
Mordidinhas, toques, afagos, nosso desejo nem sempre contido.

Sinto falta do mundo que éramos nós.

Fabiana Reinholz

Tempo presente

O passado guardado numa caixa de sapatos. Minha caixa de pandora que raramente quero abrir. Não que o que vivi tenha sido tão ruim que não possa vir mais vezes à tona. Ao contrário, há no meio de tudo doces lembranças, feridas e uma leve desordem que me fizeram aprender, crescer, outras que foram e são como um bálsamo, que ainda acalenta os dias em que parece que tudo vai desmoronar.

Nessa caixa, as marcas habitam. Posta em um lugar bem alto que dificilmente alcanço e onde há tempos deixei. É preciso deixá-las ser o que são como fotos amarelas em um álbum puído. Deixar posto em chamas as lembranças mais doídas que nada tem a acrescentar a caixa.

Mas em circunstâncias especiais, em momentos raros em que ela desce e a abro, limpo, deixo-a respirar e ela volta ao seu tamanho normal, a dimensão exata para não se fazer esquecer do que vivi, servindo como alerta, como apreço, como um consolo. Mas somente isso, e a caixa volta ao seu lugar, afastado do meu presente.

Amores furtivos olvidados em sombras, frases, cartas, amigos que se perderam na penumbra e na pressa minha, dos incontáveis sonhos irrealizados. Músicas, poemas, velhas fotos, cartões, postais; sentimentos, livros empoeirados na estante, enfim todas essas partículas de existência que concretizam esse passado vivo. No silêncio, guardadas e transformadas pelo tempo.

Um lugar abrigado, onde faço visitas esporádicas quando fico sozinha e distante do mundo. Ambiente de acumulo de sentimentos, experiências, momentos. E na perspectiva desse passado vivo, desses fragmentos cristalizados que não foram perdidos ou descartados (já que é impossível guardamos tudo, o que é relativamente bom em certos casos) é que não podemos deixá-lo se perder, de vez e ser revivido (esporadicamente) para que não me torne um amontoamento de angustias e mágoas.

Como tudo o que já foi vivido suscetível à deterioração do tempo, mantenho essa caixa comigo, distante afinal, são pedaços que já foram meus e volto para o hoje, tempo que preciso sentir, trilhar, viver, pois depois de passado ele pertencerá a caixa.

                                                    

tempo desconexo

tempo desconexo

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Enquanto o ontem fica suspenso numa caixa, o amanhã, o futuro dos dias, segue como a musica dos Darma Lóvers, “uma meta flutuante”, uma bolha de sabão a brincar pelo ar, a ilusão onde fundamentamos sonhos.

Dos projetos que guardamos na gaveta para quando o futuro estiver mais próximo do hoje. Nada contra isso, às vezes ainda traço planos, contudo  eles ficaram mais próximo do agora . Do tempo que sei que posso realizá-los para que os mesmos não se tornem outra bolha de sabão de encontro ao teto, que por causa de sua fragilidade estoura.

Alimentemos os sonhos, as utopias, o chegar a algum lugar um dia, seja esse o lugar que for, ou o desejo/sonho que nasça dele. Contudo sem esquecer, da fragilidade ilusória que é o amanhã.

Abracemos, pois, o agora, para que depois esse seja uma doce lembrança colocada na caixa.

 

Fabiana Reinholz

Picadeiro

Poema inspirado no livro o Lobo da Estepe, de Hermamm Hesse.

Somos pequenas peças postas num imenso tabuleiro,
Infinitas partes a jogar
Sob holofotes de um teatro mágico, ao qual chamamos vida.
A nos iludir com gigantes castelos de cartas, frágeis a uma pétala, a um leve sopro
Seguimos num interminável esconde-esconde
Girando numa espetacular roda gigante movida a sonhos, a desejos e ambições funestas.
E rodamos incansáveis num carrossel multicolorido.
Brincamos, rimos, choramos. Nos perdemos em guerras e batalhas pueris.
Vivemos a utopia das 1001 noites de amores adormecidos.
Quando aceitamos brincar
Perdendo-se entre livros
Felizes, tristes, amargurados.
Dançamos sob o véu translúcido das quimeras
Permeados por confetes e serpentinas
Escondendo lágrimas embaixo de infinitas máscaras
Até o dia do brinde final
Quando repousaremos no leito da eternidade
Enquanto isso, vivamos nesse teatro mágico
“Que sejamos raros, loucos, onde a entrada custará nossa razão”.

Fabiana Reinholz

A melodia pulsante do temporal subtropical

“De tudo um pouco, com quase tudo em demasia” a fonte pulsante que permeia a hibridez fulgurante da subtropicais ao quase extremo sul abaixo da linha do equador para compor a sua trilha.
O casamento entre poesia, psicodelia e música não é nenhuma novidade, mutantes, legião, cazuza, secos e molhados são alguns exponenciais desse gênero. Seguindo essa corrente e “arrastando” outras mais, a banda aproxima diferentes vertentes da música contemporânea. A fusão de estilos e ritmos da música brasileira sob uma base forte do rock mesclado com a competência e a naturalidade forma a base subtropical.

Na estrada há sete anos, a banda porto-porto alegrense nasceu da vontade de pôr em prática idéias despretensiosas de fazer músicas que conciliassem originalidade e qualidade, dentro da cena de rock do Rio Grande do Sul. “Não poderia ser uma mistura forçada de rock com samba ou qualquer coisa, tinha que ser uma sonoridade nova”, diz Leon Braw, baixista da banda. Em resumo, queríamos ter uma banda que tivesse composições nas quais houvesse espaço pra mais de meio século do rock and roll, e acima de tudo, músicas que nunca perdesse a referência da Terra, Gaúcha e Brasileira, e que nunca as negasse ou reprimisse como autêntica influência cultural”, explica.

Nome de significados diversos

Mudando um pouco a estética do texto, deixo a palavra livremente exposta de braw:
“o nome da banda originou-se da situação climática do estado de
nascimento da banda, que não é tropical, e está localizado abaixo do
trópico de capricórnio, também é numa alusão a estética do frio,
na qual os gaúchos sempre vivenciaram um distanciamento em relação
ao restante do país, e é uma alusão ao movimento tropicalista, que,
como muitos não sabem, foi um movimento artístico estético que apareceu
no país rompendo paradigmas e pré-conceitos da arte/música, que na época,
era muito purista, só celebrando artistas ou da bossa nova ou do rock
bretão, e ambos na sua forma mais purista.”

E assim ela vem, melodicamente, poeticamente, vem e flutua e vai além.

Subtropicais por eles mesmos:
“O temporal no céu da boca.
A Velha Nova Invenção.
De tudo um pouco com o quase tudo em demasia.
É aquilo de delirante do rock com frio, em um feliz
encontro de esquina com sambas tristes e desesperados
e grooves de um gole só, onde é bebido por completo
o som seco e direto!
É história de letra e compasso, descomplicados
na contradição pulsante de uma sinfonia indignada e irônica,
de uma revolta ingênua com dentes afiados!
Da tristeza que não vence, se renova e sai do corpo.
Tem sul, sol, temporal, pulsação e melancolia.
Música subtropical para todos os climas.”

-Alexandre Marques – guitarra/voz
historiador, fazendo mestrado, professor
toca no projeto “noite secos & molhados”
-Leon Brawl – baixo
estudante de arquitetura e urbanismo.
arquitetura, design, direção de arte em cinema e filmes publicitários.
toca também nas bandas Proveitosa Prática, Fruet & Os Cozinheiros
e Levitan & os Tripulantes.
-Roberto Landell – guitarra/voz

By fabiana Reinholz

Montanha russa de lembranças

Enquanto espero a chuva passar, lembro de tudo que está distante
E nessas reminiscências sua lembrança é a que mais me acalanta e entristece
De um tempo em que o mundo parava para nos ver passar
A multidão que esbarrava não se fazia sentir
Nossa roda gigante de sonhos onde nossas almas peregrinas brincavam
E almejavam as nuvens que puerilmente acreditávamos ser de algodão doce
Mas as engrenagens que moviam nossos corações do alto da roda
Despencou-se rapidamente ao chão
Nosso carrossel animado consumiu-se e disparou em retirada

Nem cheiros, nem músicas, nada de nós ficou,

Fabiana Reinholz

Olhar sobre a mídia na América Latina

Matéria originalmente publicada no site FNDC, 29/02/2008 |

Um panorama inédito sobre as indústrias culturais e as indústrias de conteúdos na América Latina foi desenvolvido a partir da pesquisa realizada pela jornalista Cosette Espíndola de Castro, doutora em Comunicação. Para criar o “Observatório Latino-americano de Indústrias de Conteúdos” (financiado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – CEPAL), Cosette analisou a realidade de 11 países no continente.

Além da pesquisa, as perspectivas e os desafios da sociedade da informação diante da convergência tecnológica são abordadas pela pesquisadora nesta entrevista exclusiva ao e-Fórum. Cosette analisa a TV aberta na América Latina e a imagem brasileira no exterior, e fala sobre sua passagem pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).

Cosette é mestre em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e doutorado em Periodismo y Comunicación pela Universidad Autonoma de Barcelona. Consultora da CEPAL/Unesco, coordena o Centro Nacional de Referência em Inclusão Digital/Ibict. Em Jornalismo, atua principalmente nos temas: mídias digitais, televisão, novas tecnologias da informação e da comunicação, convergência tecnológica, educação à distância e audiências.

As indústrias culturais e os seus conteúdos – análise de Cosette Castro

Quais foram os propósitos da pesquisa Indústrias de Contenidos en Latinoamérica e qual o objetivo de criar um observatório latino-americano?

Fui contratada para pensar e desenvolver o Observatório Latino-americano de Indústrias de Conteúdos (Olicon), mas era impossível colocar “o carro na frente dos bois”, para utilizar uma expressão bem brasileira. Como pensar um projeto de longo prazo sem conhecer e analisar a realidade da região e a preparação dos países para desenvolver as indústrias de conteúdo?

Convidei pesquisadores dos países envolvidos para trabalhar em grupo: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, México, Uruguai e Venezuela. Esses países foram escolhidos por apresentarem diferentes níveis de desenvolvimento no campo das TICs, diferentes níveis de implantação da TV digital, assim como de produção de conteúdos para as mídias digitais e de inclusão social.

Metodologicamente, a eleição dos 11 países foi definida a partir do desenvolvimento das indústrias culturais e das indústrias de conteúdos. Assim: Estados com expressivo desenvolvimento das indústrias culturais e com implantação das indústrias de conteúdo; com o sistema de TV digital e projetos de TICs já definidos, como Brasil e México; Estados com expressivo desenvolvimento das indústrias culturais e projetos de TICs já definidos, mas sem definição do sistema de TV digital, como Argentina, Colômbia, Chile e Venezuela; e Estados com baixa expressão em termos de indústrias culturais, com políticas de utilização das TICs, mas sem definição do sistema de TV digital, como Bolivia, Equador, Paraguai e Peru.

Delimitamos as áreas de estudo que compõem as indústrias de conteúdo: editorial, de cinema, da televisão, do rádio, discográfica, indústria de conteúdos para celulares, produção musical independente, produção de conteúdos para web, indústria de jogos eletrônicos e conteúdos produzidos para a convergência digital (cross media).

A partir dessas informações, apresentamos um panorama da situação dos países estudados que, cremos, podem representar a situação da região como um todo, assim como apontar tendências. Então, foi possível montar 19 categorias de análise e pensar a nomenclatura do Observatório.

Em quanto tempo a pesquisa foi realizada?

A pesquisa durou oito meses, pois pediram que fossem incorporados outros dois países no decorrer do estudo. Trata-se de um trabalho inédito, seja pela abrangência e complexidade, seja pelas possibilidades que abre a novos estudos. O trabalho completo está disponível na web, em Espanhol, no endereço http://www.eclac.cl/socinfo/noticias/noticias/2/32222/GdT_eLAC_meta_13.pdf

Qual a importância de um observatório latino-americano de indústrias de conteúdo voltado para mídias digitais?

O conjunto de dados e informações, inédito nas pesquisas do gênero, permitiu conhecer as indústrias culturais que existem atualmente nos 11 países, assim como as indústrias de conteúdos em formação, suas debilidades e fortalezas. Definimos indicadores e nomenclatura para a elaboração do Observatório Latino-Americano sobre Indústrias de Conteúdos. A proposta do Observatório – que aparece detalhada na segunda parte do relatório sobre as indústrias de conteúdos na América Latina – foi aprovada oficialmente em fevereiro deste ano pelos países participantes da Reunião Interministerial da Sociedade da Informação realizada em El Salvador e o projeto deverá ser implementado ainda em 2008.

Como está sendo a apropriação dessa “realidade” nos 11 países pesquisados? Quais os principais pontos de divergência entre eles?

Em termos de governos, ainda é cedo para avaliar. Acreditamos que são necessárias algumas ações urgentes (assim como a definição de políticas públicas) para desenvolver as indústrias de conteúdo e a convergência digital na América Latina. Elas deverão ser realizadas tanto no plano local (em cada país) como no âmbito regional. Entre estas ações, posso citar, por exemplo, o desenvolvimento de um marco legal sobre o papel dos radiodifusores e empresas de telecomunicações no que diz respeito à produção de conteúdos e a convergência tecnológica; de políticas públicas que protejam as indústrias nacionais; defesa e apoio às rádios comunitárias; atualização das páginas web que tratam de temas como as indústrias culturais; sistematizar ou atualizar as informações sobre radiodifusão, telecomunicações, sobre concentração dos meios, assim como oferecer informações sobre os hábitos culturais de seus habitantes; envolver as universidades de cada país na discussão dos temas tratados na pesquisa, estimulando o desenvolvimento de pesquisas e projetos tanto na área de produção de conteúdos, como no desenvolvimento de inovações tecnológicas; o desenvolvimento de políticas para redes de banda larga.

A criação do Olicon dará visibilidade às ações de cada país em particular e da região como um todo, possibilitando o monitoramento dos avanços na indústria de produção de conteúdos, assim como o desenvolvimento de projetos com convergência tecnológica.

Quais os desafios para a sociedade da informação frente à convergência tecnológica?

São vários: promover a alfabetização digital como ferramenta de inclusão social; possibilitar o acesso a internet banda larga, estimular a produção de conteúdos audiovisuais digitais e voltados para a convergência em diferentes espaços sociais para dar vazão a riqueza multicultural da região, respeitar as diferenças lingüísticas, oferecendo produtos em diferentes línguas, assim como acessíveis a pessoas com necessidades especiais, entre outros.

E o futuro da comunicação?

Ainda estamos dando os primeiros passos. Todos somos alunos e aprendizes; alguns estão mais adiantados; outros ainda precisam ser alfabetizados digitalmente e aprender a lidar com as TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação). E não se trata apenas das pessoas pobres, mas das mais velhas, porque a terceira idade têm mais dificuldade de lidar com as novidades tecnológicas.

O importante é saber que a chegada da TV digital em diferentes países latino-americanos (como México, Brasil e Uruguai), os estudos sobre rádio digital, os conteúdos para celulares, para internet, o cinema digital e a convergência tecnológica são temas que vêm gerando um grande número de artigos (jornalísticos e acadêmicos), pesquisas, dissertações e teses não apenas na região, mas em diferentes países, como Inglaterra, EUA, Japão, seja no que diz respeito a conteúdos como desenvolvimento de softwares e aplicativos.

Qual sua avaliação sobre a TV aberta na America Latina?

Infelizmente, o quadro de concentração (vertical, horizontal ou cruzada) que ocorre no Brasil se repete nas empresas de comunicação da América Latina, particularmente nos países com produção de conteúdos audiovisuais representativa, como é o caso da Argentina, Brasil, México, Venezuela e Colômbia. Os demais Estados apresentam pouca produção local e compram dos países da região, como ocorre com o Uruguai, Bolívia ou Paraguai, que se encontram “espremidos” entre a importante produção de conteúdos audiovisuais realizada no Brasil e na Argentina.

Por outro lado, o mercado norte-americano domina 77% dos conteúdos apresentados na América Latina, embora isso não ocorra na TV aberta brasileira que produz a maior parte dos conteúdos audiovisuais que apresenta.

Quanto à produção de conteúdos independentes, o caso brasileiro (centrado na produção das grandes empresas) é diferente de países como Argentina, Venezuela ou Colômbia onde há incentivo para a produção local seja por parte dos governos, seja por parte das próprias empresas de comunicação que compram esses conteúdos.

Mas não somos apenas consumidores de conteúdos vindos de fora, já que o Brasil, Argentina, Venezuela, México e Colômbia também exportam produtos audiovisuais para diferentes línguas, inclusive para mercados como o norte-americano.
No caso argentino, mexicano e colombiano, há um mercado interessante na venda de roteiros de telenovelas, minisséries e mesmo reality shows, que vêm sendo adaptados nos países compradores com utilização de equipes locais.

Que medidas podem assegurar o multiculturalismo na TV aberta?

Em primeiro lugar, a garantia de espaço para produzir os diferentes conteúdos audiovisuais que uma sociedade multicultural tem potencial para produzir, estimulando a produção nas diferentes regiões do país; em segundo, a garantia de espaço para dar visibilidade a esses conteúdos tanto nos canais públicos como nos privados. E, quando falo de visibilidade, isso significa disponibilizar esses conteúdos em horários acessíveis à maior parte da população.

Aqui não se trata de debater sobre “bom ou mau” conteúdo, de proibir esse ou aquele tipo de programa, mas de garantir a diversidade, seja ela voltada para o campo da informação, da educação ou do entretenimento. É a diversidade que vai garantir a escolha dos diferentes públicos por programas de qualidade.

Além disso, acredito que é preciso repensar os conteúdos e disciplinas universitárias voltadas para o campo televisivo, pois os alunos são incentivados a reproduzir o modelo de TV da Globo e suas concorrentes, para garantir um emprego no futuro. Com isso, há pouco espaço para a criatividade, para fomento de novos projetos e formatos televisivos, seja em universidades públicas ou privadas.

E a estréia da TV digital no Brasil?

A TV digital existe em São Paulo desde dezembro de 2007 e apenas dá primeiros passos. É uma situação parecida aos 200 aparelhos de TV que Assis Chateaubriand disponibilizou à população do Rio de Janeiro, quando da inauguração da TV analógica. Naquele momento, sequer havia uma linguagem televisiva; era apenas reprodução da linguagem radiofônica.

Mas se tratava do nascimento de uma importante indústria no país, fato que deve se repetir agora, mas ainda não temos uma noção exata da dimensão do que está para acontecer seja pelas possibilidades ainda não totalmente exploradas da TVD em termos de formatos, de disponibilidades de novos canais e, por conseqüência, da necessidade um aumento considerável na produção de conteúdos. É preciso levar em consideração a possibilidade de convergência tecnológica e as mudanças de linguagem e o fim da chamada grade de programação. Enfim, trata-se de um novo aprendizado para profissionais, professores e pesquisadores.

Até o final do ano, a TV digital deverá estar presente nas principais capitais brasileiras, mas só poderão perceber a diferença na qualidade aqueles (poucos) que já compraram o aparelho de TV digital ou os que compraram o conversor para o sinal digital.

Espero que o preço dos conversores sejam reduzidos rapidamente e oferecidos através de compra parcelada (o governo tem negociado com as empresas) para que a população possa ter acesso à TVD. Num primeiro momento, isso representaria a melhora imediata da imagem de quase metade dos 97% dos brasileiros que possuem TV em casa e não conseguem assistir a TV aberta por problemas técnicos, como imagem com fantasma.

Estamos vivendo um momento histórico, por termos a possibilidade de construir conteúdos e novas linguagens para a TVD no país, conteúdos que não vão se restringir a produção ofertada pelos radiodifusores. Hoje, todos temos possibilidade de construir conteúdos, independente da formação.

Finalmente, quando a interatividade se tornar uma realidade na TVD brasileira, teremos a oportunidade de aproveitar os 97% de TVs analógicas que as pessoas possuem em casa para que sejam utilizadas como computadores, dando mais um passo em direção à inclusão digital e à democratização da comunicação.

O que você achou da estréia da TV Brasil?

Está apenas começando e já vem enfrentando vários problemas, principalmente políticos. Também há problemas de ordem técnica herdados da Radiobrás. Além disso, a TV Brasil precisa se adaptar rapidamente à nova realidade da TV digital, estimulando a produção de conteúdos digitais e voltados para a convergência tecnológica, como estão fazendo os departamentos específicos da Rede Globo, SBT e Record. Como se fosse pouco, precisa urgentemente capacitar seus profissionais para essa mudança e adquirir equipamentos adequados.

Enfim, há muito trabalho pela frente…

A TV por assinatura, na maior parte dos casos, só reproduz programas de outros países. Como isso influencia a nossa cultura?

Apenas 6% da população brasileira têm acesso à TV paga, e esse público fala outras línguas, vai à universidade e pode viajar. Em alguns casos, inclusive, para o exterior. Por isso, ao contrário de outros pesquisadores, creio que esse fato tem pouca influência na nossa cultura.

Desse universo de assinantes, existem 30% que só usam TV por assinatura para assistir à TV aberta, como já comentei anteriormente, por causa dos problemas técnicos que impedem inclusive boa parte da população de assistir os canais públicos. Acredito que esses 30% não se reconhecem nos conteúdos importados, até porque o Brasil tem uma forte produção de conteúdos nacional na TV aberta.

Essa questão seria importante se a TV por assinatura fosse popular e com preços acessíveis como ocorre na Argentina ou nos Estados Unidos.

Por outro lado, eu defendo a existência de cotas de conteúdo nacional na TV por assinatura, tema que já tratei na Cartografia Audiovisual Brasileira – um estudo quali-quantitativo sobre TV e cinema (2006), cujo relatório completo está disponível em diferentes sites, entre eles sbtvd.cpqd.com.Br (sem www).

Sob a ótica de um estudo seu, intitulado “Big Brother, entre a ética e a sedução da audiência”, como você avalia o impacto do mesmo sobre a cultura brasileira?

Eu considero muito restrito analisar o fenômeno Big Brother apenas em termos brasileiros. Não se trata de um fenômeno local. O sucesso desse reality show que nasceu na Holanda se reproduz em praticamente 40 países, passando por Inglaterra, Alemanha, Espanha, Portugal e até na conservadora cultura árabe e segue apresentando diferentes versões (BBB, 2 ,3,etc).

O formato faz sucesso porque mostra a vida de pessoas comuns, iguais a você ou eu, que também poderíamos ser famosos, como os participantes do programa, e que somos “normais”, ao oferecer o dia-a-dia de cada concorrente em capítulos. Porque oferece o poder simbólico de “matar” os participantes da casa, expulsando aqueles que não gostamos; estimula a curiosidade humana sobre o outro – pois não precisamos espiar os outros pela janela ou pelo buraco da fechadura, escondidos – podemos fazer isso na frente dos amigos e da família, na frente da TV ou do computador; e porque tornou-se um elemento de socialização, de conversa e comentários entre as pessoas.

Esses fatores, aliados a outros que descrevo no livro “Por Que os Reality Shows Conquistam as Audiências?” editado pela Paulus em 2006, garantem o sucesso do fenômeno e uma grande venda de produtos em torno do programa. Mas não acredito que isso vá modificar ou prejudicar a cultura brasileira, nem me coloco no direito de julgar se o programa é bom ou ruim para as audiências. Eu confio nelas (nas audiências). Para quem assiste, trata-se apenas de diversão, entretenimento. As pessoas precisam disso no dia-a-dia, pois a realidade não é algo fácil de se enfrentar. E ser sério o tempo todo é algo muito chato.

O que ocorre com a identidade cultural latino-americana em relação à norte-americana? Assistimos à premiação do Oscar ao vivo, por exemplo, mas não aos festivais de Berlim ou de Cannes…

Como comentei antes, 77% dos conteúdos audiovisuais consumidos na América Latina são produzidos nos EUA, e isso é ruim. Mostra mais os valores de fora do que os valores e a cultura local. Ao não dar visibilidade à produção local, reduz essa cultura ao anonimato, diminui seu valor e o orgulho das pessoas em assistir algo próprio. O conteúdo que vem de fora é “mais legal, mais inteligente, mais interessante” que o produzido na região.

Mas isso não ocorre unilateralmente. Vale recordar que a partir da globalização, os EUA, países europeus e Japão também consomem nossos produtos de exportação cultural, como a música, telenovelas e séries.

Eu iria além das mostras cinematográficas de Cannes ou do Festival de Berlim exibidos em países europeus desenvolvidos. Por que não mostramos os festivais brasileiros, como Gramado ou Brasília, para citar dois exemplos? Por que projetos como “Descobrindo o Brasil”, do Ministério da Cultura, não estão disponíveis em todos os canais da TV aberta em horários que a população realmente possa assistir?

Ou, em termos de América Latina, por que não existe uma legislação que obrigue as TVs abertas e por assinatura a exibir semanalmente filmes latino-americanos, que a maior parte da população quase não conhece, e por não conhecer também sabe pouco dos nossos vizinhos?

Sobre a imagem do brasileiro no exterior, como isso influencia?

Eu morei quatro anos no exterior, durante o curso de doutorado na Espanha (1999-2003), e às vezes me incomodava que só chegassem lá filmes brasileiros sobre a pobreza, sobre a dura realidade brasileira, sobre o pobre nordestino imigrante, sobre a crueza das nossas prisões. Enfim, sobre o que temos de problemas. E não chegavam (e ainda não chegam) obras diversificadas que falem de diversas temáticas, pois o Brasil tem muitos problemas, mas muitas soluções, muitas histórias para contar..

Não se trata de SÓ mostrar um “Brasil bonito”, mas também de valorizar outros trabalhos inteligentes, como a obra de Jorge Furtado, por exemplo, que toca em temas sociais importantes, mas diverte e faz pensar. A questão é não valorizar o estereótipo de que somos um país exótico, perigoso, pobre, com mulheres fáceis, que passam na praia o dia inteiro e gente que não trabalha e quer ganhar dinheiro fácil. O Brasil é muito mais do que isso…

Quais suas considerações sobre o filme Tropa de Elite? O que achou do filme, enquanto profissional de comunicação?

Pessoalmente, me choquei um pouco, porque é uma realidade que não conheço; vejo desde fora, como um quadro, assim como a maioria das pessoas que assistiram.
Mas como profissional da comunicação, gostei muito do filme, do roteiro, da música e da sua crueza necessária para o contexto da história. A violência urbana faz parte da realidade brasileira e pior, temos medo do bandido, mas também tememos a polícia. Temos medo de sair de casa, de andar na rua, de ter um carro bonito ou de morar bem.

O filme choca porque a realidade é dura e lembra o quanto somos privilegiados nesse país; choca porque expõe sem pena como a classe média compactua com o tráfico e com a manutenção da marginalidade e do círculo vicioso da violência.

É um bom filme para pensar também o papel das universidades nesse contexto e o pouco investimento nas comunidades do entorno…

Como é o seu trabalho como consultora da CEPAL/UNESCO?

Depois da pesquisa, a próxima fase é desenvolver o Observatório Latino-Americano sobre Indústrias de Conteúdos (Olicon) monitorando os países já estudados e ampliando o estudo para aqueles que ainda faltam.

Quero muito participar do desenho, criação e desenvolvimento dos centros de excelência em produção de conteúdos digitais que a reunião Interministerial da Sociedade da Informação aprovou em El Salvador no começo de fevereiro. Essa foi uma proposta brasileira, que, como delegada brasileira no evento, tive a honra de apresentar. A proposta inclui o desenvolvimento de centros nacionais de produção de conteúdos, sob uma coordenação regional, com a participação da iniciativa pública e privada, do terceiro setor e das universidades. É um grande projeto ainda em fase de discussão.

E sobre seus projetos como docente e a passagem pela Anac?

Eu sou pesquisadora da UNESP, universidade para a qual prestei concurso ano passado (2007) e sigo escrevendo e publicando artigos e participando de livros e revistas, em geral acadêmicas. Além disso, André Barbosa Filho e eu estamos preparando um livro sobre “Educação, Mídias Digitais e inclusão” (título provisório) que será lançado ainda este ano pela Editora Paulinas. O livro reúne uma série de artigos que viemos publicando desde o lançamento de “Mídias Digitais, inclusão social e convergência tecnológica”, em 2005, pela Editora Paulinas.

Quanto à minha passagem pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) – uma volta ao mercado depois de anos dedicados à universidade – ela está relacionada com a mudança de Porto Alegre para Brasília por um motivo muito pessoal, meu segundo casamento.

Ao chegar em Brasília em março de 2006 tive três convites de trabalho e o desafio de montar o departamento de comunicação da ANAC me pareceu o mais interessante, principalmente porque trabalhei e dei aulas sobre o tema.

Depois – como todos puderam acompanhar – se mostrou a escolha mais difícil e desgastante, por causa, em sua maioria, de situações externas à Agência, como a crise da Varig, que se arrastou por meses, as paralisações das torres, os atrasos das companhias aéreas até o acidente da Gol.

Essa é a primeira vez que falo publicamente sobre o tema. Nunca imaginei que iria passar por situações extremas como a morte de mais de 150 pessoas em meio à selva amazônica, uma região inóspita, difícil e sem informações.

Eu estava de cama naquele começo de noite, com problemas de saúde e a minha filha também estava doente. Eu a deixei com amigos e não parei de trabalhar durante os dias seguintes. Éramos uma equipe super pequena e sequer tínhamos sede própria. Pedimos emprestado salas na Infraero, dentro do aeroporto, e passamos a trabalhar em conjunto. Foi muito duro enfrentar o desespero das famílias e o despreparo geral frente à morte, seja ela coletiva ou individual.

Voltando à assessoria de Comunicação da ANAC, minha proposta foi montar o departamento de comunicação (cuja estrutura acredito que ainda esteja disponível na página web da Agência), desenvolver uma política de comunicação integrada e, no âmbito interno, ajudar a modificar a cultura militar para uma cultura civil entre os funcionários. O departamento foi montado do zero, pois a Agência era recém criada e não tinha nem equipamentos nem computadores suficientes, ou mesmo logomarca.
Foi isso que fiz durante um ano, até pedir demissão em março de 2007, por problemas de saúde. Logo em seguida, recebi o convite para ser consultora da CEPAL. O resto da história vocês já sabem…

Jornalismo em quadrinhos é uma opção narrativa

originalmente publicada no dia 28/07/2007, no site FNDC

Texto de Fabiana Reinholz e Auryane Borges.

Da ingenuidade dos primeiros tempos, até a mordaz crítica surgida na década de 60, com a contracultura, os quadrinhos foram se modificando. Subvertendo a forma doce, pueril – repleta de seus nichos de heróis, vilões e bichinhos engraçados – trouxeram para seu universo pessoas comuns e fatos reais, tornando-os atores principais de histórias que são impressas no jornalismo em quadrinhos.

Houve tempos em que nos jornais predominava as palavras, dispostas graficamente de modo muitas vezes pouco atrativo para o leitor. Hoje, já não é possível imaginar as páginas dos impressos sem imagens. A idéia transmitida por uma seqüência de imagens em quadrinhos surgiu como uma nova linguagem jornalística.

Os quadrinhos, que na década de 60 assumiram o papel de contracultura, atualmente garantem espaço em praticamente todos os jornais diários com as famosas ‘tirinhas’, que por vezes apresentam ácidas críticas. Embora existam desde o século XIX no Brasil, as reportagens em quadrinhos não possuem espaço na mídia impressa, como aponta o trabalho de conclusão feito pela ex-aluna de jornalismo, da Unisinos, Michele Fatturi, diplomada no último sábado.

Reportagem em quadrinhos: análise e aplicação de uma nova possibilidade para o jornalismo é o trabalho de Michele que aborda essa tendência. Segundo ela, o jornalismo em quadrinhos surgiu como uma nova opção de narrativa jornalística. Apesar de ser uma forma mais leve de se narrar um evento, eles são tratados e feitos com bastante profundidade. “Nele você pode encontrar tanto ou mais informação do que numa reportagem convencional porque se tem mais o lado humano”, afirma.

Diferente do que acontecia no século retrasado, os veículos de comunicação não abrem mais espaço a esse segmento. As publicações ficam restritas a livros e a publicações literárias. Não há jornais ou revistas que tragam em suas páginas reportagens em forma de HQs. Para a estudante, as possíveis justificativas para isso referem-se ao alto custo que esse tipo de trabalho demanda às empresas e o processo que é um pouco demorado.

Em contrapartida, O jornal britânico The Guardian, é um exemplo de que é possível para o jornalismo abrir espaço a essa nova narrativa. O periódico abre espaço em seu caderno de final de semana, para as reportagens em quadrinhos, como é o caso das matérias desenvolvidas por Joe Sacco – artista de quadrinhos e jornalista, e um dos maiores nomes do jornalismo em quadrinhos.

Michele acredita que se esse tipo de reportagem estivesse em outros veículos que não somente em livro, poderia atrair um publico maior de leitores. Segundo ela, tal abordagem contribuiria para diminuir a alienação, assim como contribuir para o interesse das pessoas por assuntos que estão inseridos fora de seu universo.

Da cultura pop à comunicação de massa

Usando uma linguagem um tanto quanto “ácida”, as histórias em quadrinhos deixam de lado o universo lúdico e começam a abordar temas vigentes da década de 60: como as drogas, revolução sexual r o questionamento sobre a eficácia da guerra. Os quadrinhos deixaram de ser apenas mero divertimento infanto-juvenil e para os adolescentes e passaram a ser base para a reconstrução da forma de se propagar a notícia.

No Século XIX, os jornais serviam como meio de se disseminar a cultura literária; nomes como Machado de Assis, Alexandre Dumas e outros mais, tinham suas obras transformadas em folhetins. Desse modo, sob a tutela dos folhetins, as histórias em quadrinhos passaram a ser contadas em tiras diárias e continuadas. No Brasil, o italiano Ângelo Agostini, fazia diversas reportagens em HQs, assim como inúmeras charges e caricaturas de figuras políticas da época de Dom Pedro II.

Ainda hoje encontramos charges, tiras, caricaturas, livros e periódicos – que retratam não somente pessoas, mas situações delimitadas no tempo e espaço. Outras formas de se fazer jornalismo em quadrinhos foram surgindo ou se reinventando: como os Fanzines (revistas em quadrinhos amadoras, feita de forma artesanal a partir de máquinas de xérox ou mimeógrafos), os Graphic novel (revistas em quadrinhos que geralmente trazem enredos longos e complexos, frequentemente direcionados ao público adulto) e o Webcomics (são histórias em quadrinhos publicadas na internet).