Apego, uma primeira abordagem

retirado do site: http://pt.chagdud.org

Chagdud Khadro
O apego permeia de forma tão completa a mente dos seres humanos e determina tão consistentemente nossas ações, que nosso estado de existência é conhecido como “reino do desejo”. Fabricamos este reino ao nos fixarmos tanto nas aparências comuns do ambiente externo, quanto nas aparências mais sutis do ambiente interno da mente, que são os conceitos e as emoções. A partir desta fixação criamos um vasto espectro de experiências. Em uma extremidade, surge uma experiência infernal a partir da fixação nos objetos da raiva e do ódio – o apego convertido em total aversão. Na outra extremidade, a fixação em certos estados de meditação – um tipo de apego extremamente sutil, no entanto poderoso – resulta numa existência plena de êxtase, ainda que temporária e condicionada pelo desejo.

O apego emerge da falta de compreensão da natureza da vacuidade e da impermanência dos fenômenos. Esse equívoco fundamental é enormemente potencializado por nossos desejos mundanos que, simultaneamente, nos seduzem e frustram. Não compreendendo que nada é permanente, ou mesmo confiável, na experiência comum, temos desejos e anseios pelas coisas do mundo. Os desejos surgem incessantemente e ficamos frustrados por não obter o que queremos, por não possuirmos o suficiente, por termos algo que não queremos mais, ou por conseguir as coisas e perdê-las. Para as pessoas mais introspectivas, o próprio processo de fixação, a formação dos apegos, assim como o esforço para satisfazer os desejos, se tornam profundamente desgastantes.

Também é desgastante reconhecer que o poder do nosso apego, o hábito forte de sermos apegados, nos impulsionou ao longo de incontáveis vidas passadas e nos impulsionará ao longo de incontáveis vidas futuras, a não ser que possamos encontrar a liberação. E não estamos sós nessa dificuldade, que é compartilhada por todos os demais seres sencientes, incluindo aqueles que nos são mais queridos. Todos nós, da mesma maneira, somos iludidos pela miragem da satisfação e estamos enredados em nossa própria teia de apegos. Essa percepção, em si, se torna uma fonte de compaixão.

Na maioria dos casos, existe um certo padrão no processo que usamos para desenredar essa teia. A tristeza e a dor direcionam nossa mente para questões mais amplas sobre a vida, que só podem ser resolvidas através de uma busca espiritual. A força da impermanência nos leva continuamente a novas e contínuas alianças com amigos, casamentos, romances e laços familiares; a reviravoltas nas carreiras e contas bancárias; a mudanças nos recursos, residências e projetos; a melhoras e declínios na saúde e no bem-estar. Sabemos que, num determinado momento, vamos nos deparar com o esgotamento da juventude e a deterioração de nosso próprio corpo, com a velhice e a morte.

Se, nesse momento, tivermos a fortuna de encontrar um autêntico mestre espiritual, e se este mestre possuir a sabedoria nascida do escutar, contemplar e meditar sobre os ensinamentos da linhagem do Buda Sakiamuni, ele ou ela vai nos aconselhar a não nos afastarmos da verdade da impermanência, e sim a olhá-la profunda e diretamente. Ao examinar o nosso interior, descobrimos que as ocorrências mentais também são impermanentes, que os pensamentos e emoções vêm e vão como o vento, que as próprias características das nossas identidades pessoais são variáveis. Se olharmos para dentro de nós com as lentes da meditação, ficaremos abismados com a proliferação dos fenômenos mentais, com seu movimento agitado, seus incontáveis pontos de fixação seguidos de exigências infindáveis, digressões, imaginações e humores. Achamos difícil sentar em silêncio e olhar para eles! Para alguém que leva a sério o desenvolvimento espiritual, a primeira questão é como domar esses aspectos desregrados da própria mente.

A consciência da impermanência é a chave para o trabalho com o apego, um processo que abarca muitos níveis espirituais, envolvendo desde o principiante que busca o domínio do apego comum ao interesse pelo próprio eu, até o grandioso bodisatva, que liquida os últimos vestígios de apego a certos hábitos sutis da mente. Em cada estágio, o crescimento da compaixão é a medida que determina o quanto as amarras do apego estão se afrouxando. A liberação do egocentrismo permite a expressão mais espontânea de nossas qualidades naturais de compaixão. Especialmente, desenvolvemos a aspiração sincera de que todos os seres, nossos companheiros no reino do desejo, encontrem a liberação do apego ao mundo externo e interno como sendo reais, libertando-se da exaustiva busca pela realização de seus desejos, que leva apenas, e cada vez mais, em direção à ilusão e ao sofrimento. Essa também é a aspiração que temos em relação a nós mesmos.

Os vários eus..

Escrito por Fabiana Reinholz

Já fui queimada na fogueira….
Nada mais pode me machucar tanto…
Fui a mais bela das concubinas…das melindrosas a mais fabulosa
A mais terrível e temível guerreira…
A mensageira, nômade errante..
O lado mais doce das faces da lua…
Um anjo, um demônio
A realidade e a mais incrível quimera…
Na dança do ventre, eu fiz flutuar os véus
Num tapete mágico eu fui voar
A fervorosa dançarina espanhola eu já fiz surgir
Todos os destinos em várias mãos eu li…
Como boa cigana as mil caravanas conduzi
Eu sou a clave de sol de todas as canções que a todos faz dançar.
O fogo e a água me possuem…
Deslizo pela terral e pelo ar….
Sou a mentira mais sincera que você pode encontrar
Uma deusa, fada, bruxa, o anjo mais feliz
O principio, o meio sem fim….
Tenho a noite como companhia e o dia como condutor..
Um pouco do riso e tristeza mesclada para não esquecer que tudo é feito de passagem…
A bolha de sabão, as asas da borboleta…
O espelho e os cacos
Sou a constante invenção de mim
Um reservatório de infinitas possibilidades..
Que abita no labirinto sem fim…

Reencontrei minha espada, meu punhal e minha capa
Logo, logo terei de volta meu OM e minha flor de lótus
Agora estou pronta para voltar para casa…

Um dia eu volto…
Ou deixo outra de mim voltar…

clave

 by Fabiana Reinholz

Você foi o sonho mais lindo que tive…
E o mais demorado…
Suas claves de sol, de lá me faziam dançar…
Lembro-me de como não conseguia olhar para você..
Não queria que meus olhos me entregassem
E ficava com o sentimento preso…
Mas sou uma péssima atriz…
Já que a máscara não convencia ninguém…
Só umas bobas palavras suas animavam meu dia, com voce, só com vc ficava como uma criança com um brinquedo novo,
Me tirava o pouco do jeito que tinha…
E diferente dos outros, meu coração ficava leve…
Sem lágrimas…
Até que um dia acordei e me libertei
Você virou apenas uma doce lembrança
Cercada pelas ninfas que sempre te seguiram…
Agora estou bem … novamente pertencente somente a mim…