Assassinos a sangue frio

By Fabiana Reinholz

Para Capote jornalismo era apenas fotografia literária. Ele ambicionava algo mais. E conseguiu.

“A violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais”, a frase retirada da música Baader-Meinhof Blues, da Legião Urbana, define bem o cenário e os apectos da tragédia narrada no livro A Sangue Frio. Considerado um marco na literatura e no jornalismo, o livro, segundo seu próprio autor, fez surgir um novo gênero: o romance de não ficção ou romance sem ficção. Um relato brilhante de uma terrível tragédia, que transformou um pequeno homem, no mais cultuado autor.

Em 1959, Truman Capote ao folhear o The New York Times, se deparou com uma pequena nota sobre o brutal assassinato da família Clutter, na cidade de Holcomb, Kansas – EUA. O que para muitos teria sido mais um crime banal, já que histórias similares vinham aparecendo nos jornais quase diariamente, para Capote foi o vislumbre de um bom material a ser explorado. E assim ele convence a revista The New Yorker, a qual devia dinheiro, vai atrás de sua história, na companhia da escritora e amiga Harper Lee, e a narra de forma que captura e transporta o leitor para dentro dela como uma testemunha ocular dos fatos. Sem fôlego, faz submergir, da primeira até a última página. “E o que era um artigo, publicado em quatro partes no jornal, sem muita demora se transformou no estupendo livro”In Cold Blood.

Numa próspera vila de 270 habitantes, nas planícies do oeste de Kansas, no centro dos Estados Unidos, onde cresce o trigo, um lugar de poucas ruas, sem calçadas e com uma estação ferroviária em que os trens expressos quase nunca param, vivia uma típica família americana, estimada na sua comunidade. Sem saber que era seu último dia de vida, o fazendeiro e proprietário da River Valley Farm Herbert William Clutter, 48, homem forte, seguia sua rotina normal, a não ser por um detalhe: o seguro de vida que ele fez na tarde de 14 de novembro de 1959. Logo em seguida são apresentados seus algozes: Perry e Dick.

O que era para ser um simples assalto, transformou-se numa tragédia e fez surgir a desconfiança e o medo na pacata comunidade. Comunidade essa, onde ninguém ouviu os tiros, que se perderam entre os ganidos dos coiotes, e que acabaram com a vida do senhor Clutter, sua esposa Bonnie Fox, 45, portadora de “leves problemas nervosos”; e dos seus filhos adolescentes, Kenyon, forte como seu pai, e a adorável Nancy, que estava sempre disposta a ajudar os outros e sonhava com a escola de artes. Os corpos foram encontrados na manhã seguinte, amarrados e com as bocas atadas com fita adesiva. Sendo que o fazendeiro teve sua garganta cortada antes do tiro. Do plano inicial, só conseguiram levar quarenta dólares um rádio Zenith e de quebra uma condenação à morte e assim pela madrugada eles somem: ‘there’s a killer on the Road (Há um assassino na estrada)… ‘ a caminho do novo México em busca de tesouros.

Um crime perfeito aparentemente, até que sob a tutela do Departamento Garden City, com o comando de Alvin Adams Dewey, juntamente com três agentes especiais do Departamento de Investigação do Kansas (DIK) Harold Nye, Roy Church e Clarence Duntz e com uma ajudinha de Floyd  as investigações sao iniciadas. E pelas pistas e interrogatórios, algum tempo depois  são capturados. Wells foi um antigo parceiro de cela de Dick na penitenciária de Lansing, e foi através de relatos dele, que havia sido emprego da família, que o desejo de Dick surgiu. O assassino acreditava que houvesse um cofre na casa, e a partir disso, bolou o plano.

O jornalista-escritor, traça com maestria o perfil psicológico dos rapazes. “Os dois jovens tinham pouco em comum, mas não percebiam, porque compartilhavam muitos traços superficiais”. Nos seis anos que passaram entre o crime e a morte, uma amizade nasceu entre eles.

Para narrar a história da chacina, Capote permaneceu mais de um ano e meio na região entrevistando os moradores e investigando as circunstancias do crime. Abrindo mão de recursos como gravador, bloco de notas, somente contando com a sua memória e seu poder de observação. E mais seis anos para a conclusão do mesmo. A junção perfeita de ficção e realidade. A narração segue de forma linear, mostrando com riqueza de detalhes e com um pouco ou muito de imaginação, o último dia da típica família americana, até a execução dos assassinos em 14 de abril de 1965.

No corredor da morte, até o cadafalso:

* Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos…de novo

A chuva repentina começou a bater no teto alto do depósito. O som não muito diferente de um rufar de tambores, anunciou a chegada de Richard Eugene Hickcok (Dick), 33 anos, filho de fazendeiros, assaltante e assassino. “O que posso dizer sobre a pena de morte? Não sou contra. Não passa de vingança, mas não vejo nenhum problema na vingança. É uma coisa muito importante” e mais “Vocês estão me mandando para um mundo melhor do que este jamais foi”.

Em seguida foi a fez de Perry Edward Smith, de 36 anos, assaltante, filho de irlandês com índia cherokee puro-sangue, tocador de gaita e violão e o verdadeiro autor dos quatro tiros, foi executado à lh19min. Suas últimas palavras foram: “Acho um absurdo tirar a vida de uma pessoa desta maneira. Não acredito na pena de morte, nem do ponto de vista moral nem legal. Não faria sentido pedir desculpa pelo que fiz. Seria até inadequado. Mas eu queria pedir. Eu peço desculpas”. Morte que Capote não conseguiu ver.

Como em todo grande clássico, polêmicas sempre são levantadas, e com A Sangue Frio não foi diferente. Entre elas está a discussão em torno da sua fidelidade sobre os fatos ocorridos na noite do assassinato, questionamento sobre a falta de precisão. Hipótese negada pelos entrevistados na época. Outra vindo do critico inglês Kenneth Tynan que disse que Capote “teve tempo, dinheiro e influência para evitar a condenação dos assassinos, mas não o fez para se beneficiar literária e financeiramente com a execução da pena”. E também de que ele e Smith teriam se tornado amantes e de que o escritor teria pago cinqüenta dólares para conversar inicial com os criminosos.

Polêmicas e especulações a parte o fato inegável é de que o livro foi e é um sucesso, uma obra literária a consagração de um gênio, como o mesmo se denominava. Não foi o primeiro a fazer o gênero que atende por jornalismo literário, mas tornou-se um marco da linha livro-reportagem. O sucesso foi tanto que o cinema capturou a sua essência, no também bem produzido filme Capote.

As estrofes das músicas do The Doors, assim como a da Legião Urbana, formam de certa forma, a trilha desse casamento perfeito entre literatura com a agudez de um bom texto jornalístico. A Sangue Frio, enfim, uma leitura fascinante e extasiante, o viés comprobatório de que podemos ir além sem perder o foco principal.