Uma cama no céu…

Por Fabiana Reinholz

É tão estranha a concepção que temos quando somos pequenos. A ilusão de tempo e espaço parece tão distante. As “coisas” tomam uma proporção gigantesca. Nosso mundo gigantesco escondido atrás de portas. Um exemplo o nosso quarto, nosso pequeno-grande universo, mundo de sonhos e pesadelos. Porto que ao longo do tempo vai se transformando, vai se metamorfoseando juntamente a nós.

Talvez o quarto seja o cômodo da casa mais saudosista, pra mim pelo menos é assim que o vejo. É o lugar que me faz voltar aonde não cabe mais ninguém. O espaço que me leva “ao mundo dos olhos para dentro”. Minha máquina do tempo.
Território que apesar dos sopros contínuos do tempo que o transformaram e o mutaram, ainda guarda de um canto qualquer a doce melodia de uma caixinha de música que não cansa de tocar. Comecemos pela infância:

A porta, bem não havia uma porta, e sim uma cortina florida – não eram rosas (a foto sem foco não me deixa ver o que era- mas erma flores isso é o importa) -que o separava do resto da casa. As paredes cor de arco-íris com gotas de chocolate, de onde pendiam bonecas e retratos.
O piso escorregadio, vermelho cera, onde rolava eu e meus gatos imaginários (mamãe detesta felinos), onde sentava pra contar historinhas aos grilos e joaninhas apanhadas no quintal.

Da janela do meu quarto – feita de madeira verde – se descortinada o mundo, onde meus olhos cumprimentavam sempre as borboletas que pousavam nas violetas postas num canteiro improvisado afixado a ela.A vidraça enorme, que mais parecia uma porta abria-se para o sol entrar e iluminar, me convidando para brincar.

Os grãos da ampulheta desciam suavemente, deslizando na canção de ninar.
Contudo os dias foram passando, as paredes escurecendo, um grande muro se levantou, não me permitindo ver as borboletas. O sol recolheu-se; as bonecas substituídas por CDS, pôsteres, livros. A cortina deu lugar à porta, o vermelho que cobria o chão virou cerâmica branca.

O que restou daquele pequeno universo, hoje cabe numa caixa de sapato, envolta com uma fita prateada que vira -e- mexe salta de dentro do roupeiro e se espalha por toda a extensão do cubículo lugar que abriga as noites insones. Noites essas que me levam às borboletas. E que junto com elas vou ao meu mundo particular e quase perfeito.

Onde há uma rede gigante, sem paredes para me prender, lugar onde corre um riacho de águas límpidas, beija-flores beijam meu cabelo, lugar onde me esqueço e me lembro do que realmente quero: talvez uma cãs ano campo, onde de vez em quando amigos a visitem, que seja embalada pelo bom rock and roll. Parece contraditório, eu sei, mas o que me faz feliz é um espaço onde nem sempre as coisas façam sentido. Como esse texto escrito sobre uma nuvem de algodão.

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